quarta-feira, 18 de abril de 2012

“Nenhuma criança precisa de uma mãe perfeita”



Psicóloga Elizabeth Monteiro sugere caminhos para se libertar da culpa em novo livro. Leia entrevista


Renata Losso, especial para o iG São Paulo |


Foto: Tato Ghiurghi
Elizabeth Monteiro, autora de "A Culpa é da Mãe": livro procura libertar mulheres da busca pela perfeição
“Onde foi que eu errei?” é uma pergunta inevitável para todas as mães. De tanto se deparar com o questionamento, a psicóloga Elizabeth Monteiro escreveu o recém-lançado livro “A Culpa é da Mãe” (Summus Editorial), com prefácio de Lya Luft, em que conta as próprias aventuras como mãe de quatro filhos e mostra que não há outra fórmula para ser mãe além de ser você mesma.

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Veja abaixo a conversa que tivemos com ela e pense duas vezes antes de se sentir culpada pelo filho que foi mal na prova de matemática ou por tê-lo colocado de castigo quando ele aprontou.

iG: Como surgiu a ideia do livro?
Elizabeth Monteiro: Os meus livros sempre surgem por causa das demandas que recebo em consultório. E com “A Culpa é da Mãe” não foi diferente. Percebi o quanto as mães se culpam por erros reais e imaginários e se queixam quando o mundo as culpa, então escrevi esse livro em favor das mães culpadas, que estão cansadas e são supercobradas.

Nenhuma criança precisa de uma mãe perfeita. As mães ficam buscando modelos nos outros, mas não precisam de fórmulas. Basta olhar para dentro de si e agir de acordo com os próprios valores. Mães culpadas perdem o referencial e passam para o filho uma sensação de abandono por culpa da insegurança que sentem.

iG: Todas as mães se sentem culpadas?
Elizabeth Monteiro:
A maioria. Nunca conheci uma mãe que não se sentisse culpada por algum motivo. Se o filho não nasce do jeito que as pessoas esperavam, se o filho não tem sucesso na escola... Elas se culpam pelo fracasso dos filhos porque são as maiores responsáveis pela educação da criança. Claro, nem sempre é assim, mas atualmente a mãe costuma ser a enfermeira, a motorista, a educadora. Ela desempenha muitos papéis e essa culpa sempre sobra para ela.

Faça o teste: que tipo de mãe você é na educação dos seus filhos?
Foto: Divulgação
Capa do livro "A Culpa é da Mãe"
iG: Desde quando elas se cobram? Por que esse peso acompanha a maternidade?
Elizabeth Monteiro:
Essa coisa da mãe, da maternidade, da criança ser tratada como criança é muito recente. Até o século XIX as crianças eram tratadas como adultos. A partir do século XX surge a mulher como a grande matriarca e, com isso, a culpa. É aquele antigo chavão: “Ser mãe é padecer no paraíso”. E hoje, se elas não estão se cobrando, o mundo as está cobrando.

Hoje existe essa cultura da perfeição e as mães se cobram mais do que poderiam e deveriam. Os comerciais mostram as famílias maravilhosas que estão distantes da vida real e esquecemos que o filho precisa conhecer a mãe do jeito que ela é, com o lado bom e o lado ruim. Errar é humano e as crianças precisam aprender a lidar com isso também. Afinal, na sociedade, elas se depararão com todos os tipos de pessoas.

iG: Hoje elas se culpam mais do que antigamente? Por quê?
Elizabeth Monteiro:
Hoje as mulheres podem ser chefes de família. Mas isso também traz um ônus: além do papel de mãe, elas assumem papéis profissionais. Porque elas passam menos horas com os filhos, se sentem ainda mais culpadas. Se antigamente elas se culpavam somente porque o filho não se dava bem na escola, hoje elas se culpam pela falta de tempo para passar com eles, pela falta de paciência por estarem estressadas. Pela ausência em si.
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As crianças precisam de segurança e isso só pode ser passado por pais verdadeiros. É melhor dizer que não está com paciência para brincar hoje do que ceder à vontade do filho sem disposição, pensando no trabalho, impaciente.
iG: Como essa culpa se manifesta?
Elizabeth Monteiro:
Elas se sentem fracassadas, sentem que não sabem fazer nada direito, que rejeitam o próprio filho. Ou ficam se comparando com a imagem que as outras mães passam e buscando receitas de perfeição, mas esquecem de que ninguém é perfeito e basta olhar para dentro de si. As crianças precisam de segurança e isso só pode ser passado por pais verdadeiros. É melhor dizer que não tem paciência para brincar hoje do que ceder à vontade do filho sem disposição, pensando no trabalho, impaciente. É melhor ser honesta, que a culpa não aparece. Se for brincar por obrigação, a mãe acabará se culpando por ter perdido a paciência, por não ter se envolvido, porque passou por cima do que sentia naquele momento.
iG: Que consequências esse sentimento pode trazer para os filhos?
Elizabeth Monteiro:
A criança acabará não conhecendo a mãe que tem. A mãe que uma hora deixa fazer uma coisa e, em outro momento, não. Essa mãe acaba gerando filhos ansiosos e inseguros, que querem ser perfeccionistas e que não podem errar. Que se culpam também e buscam culpar as outras pessoas no mundo.

Uma criança precisa de limites, precisa levar bronca e precisa de segurança, só que a mãe culpada fica em dúvida e passa mensagens duplas: castigam e depois pedem perdão, falam uma coisa e depois dizem outra. O filho crescerá inseguro, com a autoestima baixa e até menos inteligente do que poderia ser, porque cresce com essas mensagens duplas e está constantemente em dúvida em relação a si próprio. E não tem coisa pior para o desenvolvimento do que isso.

iG: E para a mãe, quais as consequências dessa culpa constante?
Elizabeth Monteiro:
Baixa autoestima. E, com o tempo, a culpa leva à depressão.
 
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Quando a mãe sabe que, em um determinado momento, não pode dar mais o que dá e o filho terá que segurar a barra, essa atitude também vai ajudá-lo a crescer.

iG: Como as mães podem se livrar da culpa, ou diminuí-la?
Elizabeth Monteiro: Com o autoconhecimento. Se as mães buscarem saber dos porquês de agirem assim ou assado e se perdoarem, elas podem se livrar dessa culpa. Quando a gente se conhece profundamente descobrimos as razões de agirmos com culpa e passamos a mudar o comportamento e nos fortalecemos. E somos capazes de nos livrar de nossas culpas.

Quando a mãe sabe que, em um determinado momento, não pode dar mais o que dá e o filho terá que segurar a barra, essa atitude também vai ajudá-lo a crescer. Além disso, as mães devem saber que os filhos são diferentes. Em alguns momentos, ela vai precisar dar mais atenção a um do que a outro e ter segurança disso. Com o autoconhecimento ela não vai mais entrar no papel de vítima, nem passar ao outro o papel de juiz.

iG: E como o pai dessa criança também pode colaborar para acabar com a culpa?
Elizabeth Monteiro:
O papel do pai, até pouco tempo atrás, era somente de provedor. Mas hoje as coisas mudaram. Ter um pai participativo é parte da solução.

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