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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Dominar uma segunda língua traz benefícios ao cérebro


Série de estudos divulgados hoje nos Estados Unidos mostra que aprender uma língua desde cedo pode até adiar o mal de Alzheimer

IG - Por Natasha Madov, enviada a Washington


Os benefícios em ser fluente em mais de uma língua se estendem a muito mais que melhores chances no mercado de trabalho. Segundo um grupo de estudos apresentado na manhã desta sexta-feira (18) durante a reunião anual da Sociedade Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), em Washington, saber um segundo idioma pode até adiar o início do mal de Alzheimer.

Ellen Bialystok, professora de psicologia na Universidade York, em Toronto, apresentou os resultados de uma pesquisa com 450 pacientes com Alzheimer, metade deles bilíngues, e descobriu que aqueles que falavam dois idiomas desde pequenos apresentaram sintomas da doença quatro a cinco anos mais tarde do que aqueles que falavam apenas uma língua.

O fato não previne a doença em si, mas as habilidades cognitivas dos bilíngues criam uma espécie de barreira que retarda o início do mal.

Ellen e outros pesquisadores presentes no painel à imprensa acreditam que ser exposto a uma segunda língua desde o início da vida faz com que o cérebro fique mais flexível e capaz de realizar várias tarefas ao mesmo. Isso acontece porque o cérebro "usa" as duas línguas o tempo todo, mas "desliga" a que não está sendo usada no momento. Esse exercício cria uma habilidade de controle que tende a se consolidar durante ao longo da vida.

Janet Werker, da Universidade de British Columbia, afirmou que essas habilidades podem se manifestar muito cedo, com apenas meses de idade. A professora de psicologia estuda bebês em ambientes bilíngues e em seu estudo mais recente, mostrou que a habilidade de diferenciar entre duas línguas independe dos idiomas falados pelos bilíngues.

Sua equipe examinou bebês nas Espanha que estavam aprendendo tanto espanhol quanto catalão. Sua equipe apresentava às crianças vídeos sem som de mulheres falando francês e inglês, e registraram que, com poucos meses de vida, os pequenos bilíngues já conseguiam diferenciar entre as duas línguas, ainda que não as compreendessem. Já os bebês expostos a apenas espanhol não conseguiam perceber a diferença entre inglês e francês. "Os bebês percebiam os movimentos faciais diferentes em cada idioma. Os franceses estão sempre fazendo biquinho, por exemplo", descreveu a psicóloga durante o painel.

Benefícios também para os adultos

Os exatos mecanismos pelos quais é tão mais fácil aprender uma segunda língua na juventude do que na idade adulta ainda não são completamente conhecidos, mas as pesquisadoras presentes no painel arriscam um palpite: "Crianças pequenas têm o luxo de só fazer uma coisa na vida, que é aprender uma língua. O cérebro adulto é bombardeado com milhares de outras demandas," disse Ellen.

Isso quer dizer que os benefícios de ser bilíngue estão restritos somente a quem teve a sorte de ser exposto a várias desde pequeno? Não, segundo as pesquisadoras. "Claro que quanto mais fluente, melhor, mas qualquer aprendizado já ajuda," disse a professora canadense. "O importante é manter o cérebro ativo".

domingo, 19 de setembro de 2010

Dinheiro pode sim trazer felicidade

Prosperidade viabiliza a felicidade, que está um passo além de ter a condição mínima de existência

Verônica Mambrini, iG São Paulo | 18/09/2010 07:16



Foto: Getty Images
Aumentar a renda é um dos caminhos possíveis para a felicidade

Dinheiro traz felicidade? Manda buscar, segundo os bem-humorados. Os realistas também acreditam que sim, dinheiro é muito bom, e quanto mais, melhor. Enquanto isso, os idealistas não querem nem ouvir falar dessa associação. O tira-teima científico veio com uma pesquisa da Universidade de Princeton, publicado no começo do mês, que não apenas confirma a ligação entre ambos, como quantifica a renda necessária para ter um aumento na felicidade. Até US$ 75 mil em ganhos anuais, a sensação de felicidade cresce. Daí em diante, a diferença é pouco significativa – em moeda nacional, o valor corresponde a R$130 mil por ano, que dividido em doze meses equivale a rendimentos de R$10.800 por mês.

A explicação é simples: sem ter as necessidades básicas atendidas, sobram preocupações com problemas imediatos, como alimentação, moradia e saúde, e, dessa forma, é mais difícil tirar contentamento da vida, segundo Angus Deaton, economista do Centro de Saúde e Bem-Estar da Universidade de Princeton, um dos autores do estudo. Outras pesquisas confirmam essa ideia. De acordo com o Royal College of Psychiatrists, no Reino Unido, pessoas com problemas financeiros têm o dobro de chances de desenvolver doenças mentais, como depressão e ansiedade, ao longo da vida, em comparação com quem não tem. Desemprego e crises econômicas, segundo a sociedade médica, detonariam ondas de problemas mentais.

Ser feliz é um estado da alma

 
No Brasil, o Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conduziu o projeto “O que é felicidade para você”, para estudar o tema sob a perspectiva brasileira. “Na nossa pesquisa, estamos tentando delinear a felicidade do brasileiro e buscar se o dinheiro afeta o brasileiro em si”, afirma Guilherme Takamine, um dos pesquisadores. A área de estudo, chamada de Bem Estar Subjetivo, diferencia conceitos como felicidade e satisfação, que não são exatamente iguais. É preciso também relativizar estudos desse tipo, porque medem realidades sociais muito diferentes de acordo com a população e o país onde foram feitos.

Para Pedro Pires, pesquisador da UFRJ, a psicologia tem se aproximado muito do conceito oriental de felicidade, que é de um estado interior da pessoa, que pouco depende das circunstâncias. Por outro lado, a satisfação costuma ser temporária e ligada a fatores externos, como uma roupa nova ou um aumento de salário. É mais um caminho para chegar à felicidade, mas não o único, segundo Pires. “A felicidade tende a ser conceituada dentro da psicologia do bem-estar como um estado constante e interno, mas possui relação com graus de satisfação, que se relaciona também com dinheiro”, afirma. Outros elementos, como se engajar em atividades sociais ou a formação religiosa podem levar a relações diferentes com a moeda. Ações altruístas, por exemplo, proporcionariam estados mais duradouros de satisfação. “O importante é solidificar outros valores, que promovam possibilidades de satisfação e um estado de felicidade”.

Um passo além do necessário

 
Para a filosofia, a felicidade não pode ser confundida com a satisfação das necessidades. “Essa ideia faz sentido numa sociedade extremamente excludente, que vive da reprodução da miséria. A felicidade está um passo além de ter a condição mínima de existência”, afirma Dulce Critelli, professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e coordenadora do Existentia - Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana. “Essas pesquisas tendem medir a felicidade em termos de saciedade, de quanto eu consigo consumir”. Não que isso seja irrelevante para Dulce. “O problema é limitá-la a isso”.

A medida da felicidade, para ela, passa por outros campos da vida humana, como a realização pessoal, qualidade nas relações com amigos e família, e a capacidade de interferência no mundo, por exemplo. “Elas não medem a capacidade de encontrar satisfação numa conversa ou no ajudar uma pessoa”, diz Dulce. Por trás dessa noção de felicidade, a filósofa acredita que esteja um ritmo semelhante ao da vida biológica, em que tudo é cíclico. Dorme-se, sente-se sono, dorme-se de novo. O consumo, assim como a necessidade de comida, é constante. Já felicidade vinda de valores subjetivos não se descarta, acumula-se, como amizades e afetos na vida da pessoa.

Conforto é satisfação

Se satisfação não é exatamente felicidade, dá para ser feliz sem estar satisfeito? “O caminho é esse: realizar aspirações sem ter problemas para pagar o dia a dia”, diz o consultor em finanças pessoais Conrado Navarro, autor do blog Dinheirama. “O grande problema é insistir em aumentar o padrão de vida artificialmente, se endividando.” Navarro cita o exemplo de pessoas que parcelam a perder de vista os sonhos de consumo para sustentar um padrão de vida artificialmente alto. “Aceitar a realidade pode ser um pouquinho frustrante no primeiro momento, mas respeitar esse limite e poupar traz uma sensação de realização maior”, acredita o consultor.
 
Nos últimos anos, o Brasil está passando por uma explosão de crédito e consumo que aumentou o acesso a bens mais básicos para a população e democratizou o conforto para a classe média. “Estamos aprendendo a consumir agora. Isso traz um desafio maior para as famílias, porque elas querem se incluir socialmente pelo consumo, e rapidamente”, alerta Navarro. “É impossível fazer decisões financeiras sem emoção, mas é preciso tentar racionalizar o compromisso desses cursos”, afirma. “Dinheiro tem que ser um instrumento de liberdade. Ter cada vez mais roupas e sapatos não faz uma pessoa cada vez mais feliz. É preciso focar no que vai trazer mais valor para a família”. Talvez, no balanço final, o dito popular mais adequado seja o que afirma que a melhor parte de ter dinheiro é não precisar pensar nele.