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segunda-feira, 26 de março de 2012

Sete perguntas sobre brincadeiras infantis

 

“É importante permitir que a criança aprenda a brincar sozinha”, afirma Kathleen Alfano, especialista com mais de 40 anos dedicados ao desenvolvimento da criança


Clarissa Passos, iG São Paulo |


Foto: Jackie Albarella Ampliar
Kathleen Alfano: depois da alimentação, afeto e cuidados pessoais, brincadeiras são o mais importante para uma criança

Kathleen Alfano tem mais de 40 anos de experiência em desenvolvimento e educação infantil. Mais de 30 deles foram passados à frente do Play Lab, laboratório de apoio à criação de brinquedos da Fisher-Price. Especialista no assunto reconhecida internacionalmente, ela conheceu o mundo dando palestras em países de culturas tão diferentes quanto Rússia e Japão. Hoje diretora sênior do Departamento de Pesquisa Infantil da empresa, Kathleen também é pesquisadora e PhD em educação.

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Ela falou ao Delas sobre brinquedos e brincadeiras diretamente do Play Lab, em East Aurora, nos Estados Unidos, cidade onde ficam os escritórios da Fisher-Price. Segundo Kathleen, a percepção geral de que brinquedos eletrônicos são ruins para a imaginação está equivocada. E os pais precisam aprender a respeitar o tempo de brincadeira dos filhos. “Brincar não é apenas algo que a criança faz para passar o tempo”, resume. Quando bem estimuladas, crianças que brincam tendem a ser mais bem-sucedidas que as outras. Leia a entrevista completa abaixo e deixe seu comentário: você concorda com Kathleen?

iG: Qual a importância do brincar para a criança?

Kathleen Alfano:
Segundo estudos acadêmicos e minha própria observação, crianças que brincam são mais bem ajustadas. É por meio da brincadeira que elas aprender a resolver problemas. Elas aprendem a dividir, a se defender, a falar – tudo através da brincadeira. Elas resolvem problemas e treinam o pensamento criativo. Então, quem brinca acaba sendo, segundo estudos, uma criança mais bem ajustada e um aluno melhor.

O brinquedo ajuda a brincadeira a acontecer. A brincadeira acontece sem os brinquedos, mas eles facilitam a brincadeira. Quando você tem um brinquedo adequado para a idade, baseado nas habilidades de desenvolvimento da criança, eis uma combinação perfeita.
Foto: Thinkstock Ampliar
Para as crianças, brincar é a primeira forma de se relacionar com o mundo


iG: Hoje em dia, essa importância da brincadeira é subestimada?

Kathleen Alfano:

Sim. Há uma percepção geral de que brincar é algo que as crianças fazem só para passar o tempo. Mas na verdade, brincar tem um papel fundamental no desenvolvimento infantil. É a maneira da criança sentir-se livre para experimentar, descobrir e explorar. Algumas pré-escolas daqui [dos Estados Unidos] querem tirar o horário livre da grade diária e estamos tentando impedi-los de fazer isso. A criança precisa ter um tempo livre para brincar.

iG: Você acha que brincar é tão importante para a criança quanto comer?

Kathleen Alfano:
Depois da alimentação, do afeto e dos cuidados físicos, vem o brincar. Crianças que são bem-nutridas, amadas e bem cuidadas serão bem sucedidas. Mas, se brincarem, alcançarão ainda mais sucesso.

iG: Nestes 40 anos de experiência, você viu muitas mudanças na maneira que as crianças brincam?

Kathleen Alfano:
Não na forma como elas brincam, mas com o que elas brincam. Crianças gostam de explorar, apertar botões, criar sons. Isso tem sido sempre igual. Mas hoje eles têm objetos diferentes para brincar, e isso faz com que eles pareçam mais espertos aos nossos olhos. Porque eles podem brincar com um iPhone ou um iPad, entre outros gadgets. Eles não têm medo de tecnologia, nem de explorá-la. Mas ainda gostam de brincar das mesmas coisas: de faz de conta, de inventar histórias, brincar com a caixa onde veio o brinquedo...
Foto: ig
Brincadeiras para todas as idades e tipos de crianças


iG: E os pais?

Kathleen Alfano:
Os pais mudaram. Eles estão mais informados e têm mais expectativas. Hoje há mais fabricantes de brinquedos, mais lojas e eles têm mais decisões a tomar. Mas todos eles têm o mesmo objetivo: fazer o melhor para seus filhos.

iG: Qual o maior erro dos pais quando o assunto é o brincar?

Kathleen Alfano:
Um erro muito comum é julgar que brinquedos eletrônicos são ruins. Eletrônicos não “roubam” a imaginação das crianças, que são muito adaptáveis. Se o componente eletrônico for um opcional, de forma que o brinquedo seja funcional mesmo sem pilhas, não há problemas. Quem está no controle é a criança.

iG: E qual o papel dos pais nas brincadeiras dos filhos?

Kathleen Alfano:
Os pais devem proporcionar um ambiente seguro, brinquedos adequados para a idade e tempo para a criança brincar. Além disso, devem respeitar a brincadeira: muitas vezes a criança leva um tempo para sair do faz de conta. Por fim, estar presente é importante, mas tão importante quanto é permitir que a criança também aprenda a brincar sozinha.

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ter um melhor amigo melhora saúde da criança

 

Laços de amizade ajudam crianças a superar experiências difíceis e diminuem impacto negativo sobre autoestima infantil, diz estudo canadense


NYT | IG

"Ter um melhor amigo presente durante um evento desagradável tem impacto imediato sobre o corpo e a mente de uma criança", disse o coautor do estudo William Bukowski, professor de psicologia e diretor do Centro de Investigação em Desenvolvimento Humano na Universidade Concordia, em Montreal. "Se uma criança passa sozinha por problemas com um professor ou uma discussão com um colega de classe, vemos um aumento considerável nos níveis de cortisol e diminuição da sensação de autoestima".

Leia: Como estimular seu filho a fazer amizades

Para o estudo, os investigadores pediram a 55 meninos e 48 meninas de cinco e seis anos para registrar seus sentimentos e experiências em um diário ao longo de quatro dias. Níveis de cortisol das crianças - o hormônio do estresse - também foram monitorados em testes de saliva regulares.


Foto: Thinkstock/Getty ImagesAmpliar
Melhor amigo ajuda a melhor nível de cortisol e autoestima das
 crianças durante experiências ruins

O estudo, recentemente publicado na revista “Developmental Psychology”, revelou aumento do cortisol e autoestima diminuída quando a criança teve uma experiência negativa. No entanto, quando havia um melhor amigo presente para compartilhar a experiência ruim, os níveis de cortisol e os sentimentos de autoestima apresentaram uma mudança menor.

Leia: Amizades feitas na infância podem oferecer grandes benefícios para a vida adulta

Os pesquisadores notaram que o que acontece durante a infância pode afetar as pessoas na vida adulta, incluindo ter sentimentos de baixa autoestima. "Nossas reações fisiológicas e psicológicas diante de experiências negativas na infância impactam mais tarde", explicou Bukowski em um comunicado da universidade. "A secreção excessiva de cortisol pode levar a significativas alterações fisiológicas, incluindo a supressão imunológica e diminuição da formação óssea. Aumento de estresse pode realmente retardar o desenvolvimento da criança".

Os autores da pesquisa disseram que estudos anteriores mostraram também que ter amizades podem ajudar a proteger as pessoas contra o assédio moral, exclusão social e outras formas de agressão.

>> Teve um amigo que ajudou você a superar uma experiência difícil na infância? Clique aqui e conte como foi

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

11 erros comuns sobre a segurança do bebê

Do berço ao passeio de carro, atitudes aparentemente sem importância podem colocar seu filho em risco. Aprenda a evitá-las



Renata Losso, especial para o iG São Paulo |

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11 erros comuns sobre a segurança do bebêDo berço ao passeio de carro, atitudes aparentemente sem importância podem colocar seu filho em risco. Aprenda a evitá-las
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11 erros comuns sobre a segurança do bebêDo berço ao passeio de carro, atitudes aparentemente sem importância podem colocar seu filho em risco. Aprenda a evitá-las
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Foto: Getty Images Ampliar
Berço cheio de bichinhos: mesmo macios, objetos oferecem risco


1. Encher o berço de objetos macios


Antes mesmo da chegada do bebê, o berço já está cheio de almofadinhas, bichinhos e enfeites – tudo para deixá-lo encantador e aconchegante. Porém, de acordo com Alessandra Françóia, coordenadora nacional da ONG Criança Segura, o ideal é manter o berço livre. “Quanto menos coisa se coloca, mais seguro e saudável ele se torna”, diz. E não somente pelo risco de sufocação: o excesso de objetos também facilita ao bebê escalar o berço e correr mais riscos de sofrer uma queda.

2. Colocar protetores acolchoados nas grades do berço

O uso é contraindicado pela Sociedade Americana de Pediatria. “O bebê pode se enfiar debaixo do protetor e sufocar”, diz a pediatra Camila Reibscheid, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo. Os pais acabam colocando os protetores por medo de que a criança prenda o braço ou os pés entre as grades, mas o ideal é que a distância entre as hastes da grade não permita isso. “O perigo são os riscos silenciosos, como a sufocação”, diz Alessandra Françóia. Saiba reconhecer um berço seguro.

3. Deixar móbiles ao alcance do bebê


Assim como os enfeites de berço, os móbiles também são encantadores. Mas, de acordo com pediatra Marislaine de Mendonça, do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria, é um erro comum se esquecer de ajustá-los de acordo com o crescimento da criança. Quando alcança o enfeite, o bebê corre dois riscos: o móbile cair em cima dele ou ele se pendurar e cair para fora do berço.

4. Abusar das cobertas e usar travesseiro

Evitar o excesso também vale para cobertas e travesseiros. Segundo Alessandra Françóia, a regra é vestir mais roupa no bebê e usar menos cobertas no berço. Se for utilizá-las, o indicado é uma coberta leve, no máximo até a altura do peito do bebê, com o cuidado de manter os bracinhos dele para fora. Prender essa coberta embaixo do colchão também é uma forma de evitar que a criança cubra o próprio rosto. Se o bebê passou da fase de dormir quietinho e fica se virando no berço, os pais devem avaliar se o uso da coberta será mesmo seguro.

Além disso, a especialista comenta que o uso do travesseiro não é necessário nesta fase inicial da vida do bebê. Desnecessário, ele representa apenas mais um risco de sufocação.
Foto: Getty Images Ampliar
Dormir com o bebê: a cena é linda, mas o perigo é grande


5. Levar o bebê para dormir na cama dos pais


Pode ser difícil convencer o bebê a ficar no próprio berço. Mas o pediatra e neonatologista Jorge Huberman, do Instituto Saúde Plena e do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, indica aos pais jamais ceder e levar o filho para dormir na própria cama. “É um perigo. Os pais irão dormir também e podem sufocar o filho”, comenta. Descubra aqui o que fazer para que o bebê consiga dormir com mais facilidade – e no próprio berço.

6. Colocar o bebê para dormir na posição errada

Se antes a indicação era colocar os bebês para dormir de bruços, por medo de que ele regurgitasse e se engasgasse no meio da noite, hoje os estudos apontam para o oposto: o mais seguro é o bebê dormir de barriga para cima. Alguns pais, no entanto, ainda colocam os pequenos em posições inadequadas. “Muitos ainda têm medo de colocar a criança de barriga para cima, já que ficou marcado na memória que esta posição é perigosa”, afirma Camila Reibscheid.

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7. Permitir o uso do andador


Com comercialização proibida no Canadá, o objeto bem conhecido dos pais – e ainda muito utilizado – é hoje contraindicado pelos pediatras brasileiros. De acordo com Marislaine, da Sociedade Brasileira de Pediatria, o andador é causador de muitos acidentes. “Ele pode alcançar uma velocidade considerável e favorece as quedas”, diz. Camila Reibscheid lista outros problemas: com o andador, a criança pode cair de um degrau no meio do caminho, prender o dedo na parede e, principalmente, cair feio e até sofrer um traumatismo craniano. O objeto também pode prejudicar o desenvolvimento da criança e deixá-la mais insegura para dar os primeiros passos sozinha. “Por isso, se ganhou de presente, troque-o”, recomenda.

8. Dar brinquedos não indicados para bebês

Especialmente nas famílias com um irmão mais velho, é comum os pais darem ao menor os brinquedos que deixaram de ser usados pelo primogênito. Mas a indicação da faixa etária sempre deve ser seguida. Crianças menores têm a tendência a conhecer o mundo pelos sentidos e podem colocar os brinquedos na boca. Se ele tiver uma peça pequena que se solta facilmente, pronto: os pais podem ter que sair correndo para o hospital ou, pior, podem nem perceber que o filho engoliu um objeto não identificado. Brinquedos para crianças mais velhas também podem soltar tinta tóxica. Marislaine de Mendonça indica aos pais se assegurar da classificação etária do brinquedo e do selo de qualidade e segurança do Inmetro.

9. Deixar moedas e objetos pequenos ao redor

Com criança pequena, todo cuidado é pouco. E com objetos pequenos, também. Marislaine de Mendonça ressalta que os pais devem estar sempre atentos para não deixar ao alcance do bebê nada que possa ser ingerido. Entre broches e grampos de cabelo, saiba como evitar que as crianças engulam objetos.
Foto: Getty Images Ampliar
Instalação da cadeirinha: certifique-se do uso correto


10. Não instalar a cadeirinha corretamente


Ao comprar o bebê-conforto, tente instalá-lo antes de ir para casa. Assim, é possível pedir orientações na própria loja, caso o manual deixe dúvidas. Lembre-se da posição correta: antes de um ano de idade (ou antes de a criança chegar aos 10 quilos), a cadeirinha deve ficar virada para a traseira do carro. É mais seguro.

>>> Veja em vídeo como instalar a cadeirinha com segurança

11. Esquecer o cinto de segurança da cadeirinha ou carrinho

De acordo com Alessandra Françóia, da ONG Criança Segura, muitos pais se esquecem desse detalhe e o bebê pode escorregar e cair. Ela também recomenda aos pais não pendurar sacolas de compras pesadas no guidão: o peso pode desequilibrar o carrinho e levar tudo ao chão, inclusive o bebê.



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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Bullying na internet é problema global, mostra pesquisa

 

Maioria das pessoas questionadas considera que cyberbullying merece atenção especial de pais e escolas


Reuters |IG
 
 
 
Mais de 10% dos pais ao redor do mundo afirmaram que seus filhos sofreram bullying na Internet e quase um quarto conhece um jovem que já foi vítima das intimidações na Web, segundo uma pesquisa da Ipsos/Reuters.

Mais de três quartos das pessoas questionadas na pesquisa global consideraram o cyberbullying diferente de outros tipos de perseguição e disseram que ele merece atenção especial e esforços de pais e de escolas.

"Os dados mostram claramente um apetite entre pessoas ao redor do mundo por uma resposta direcionada ao cyberbullying", disse Keren Gottfried, da empresa de pesquisas Ipsos, que conduziu a pesquisa.

Ela acrescentou, contudo, que depende dos educadores agir de acordo com essa demanda.

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A pesquisa online, que englobou mais de 18 mil adultos em 24 países, dos quais 6.500 são pais, mostrou que o veículo mais utilizado para o cyberbullying são sites de redes sociais como o Facebook, citado por 60% das pessoas.

Aparelhos móveis e salas de bate-papo na Internet ficaram nos distantes segundo e terceiro lugares da pesquisa, sendo que cada um deles foi citado por 40% das pessoas.

Embora a pesquisa tenha mostrado que a conscientização sobre o cyberbullying é relativamente alta, com dois terços das pessoas afirmando que ouviram, leram ou viram informações sobre o fenômeno, a pesquisa mostrou que há muitas diferenças culturais e geográficas a respeito dele.
Veja ainda:

Na Indonésia, 91% dos entrevistados disseram conhecer o cyberbullying. Na Austrália, o número foi de 87%, e Polônia e Suécia ficaram a seguir. Mas somente 29% das pessoas ouvidas na Arábia Saudita e 35% dos entrevistados na Rússia haviam ouvido sobre o cyberbullying.

Nos Estados Unidos, o número foi de 82%.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Antecipar a alfabetização do seu filho nem sempre é a melhor escolha

Antes de pular um ano letivo, a criança deve ser avaliada com cuidado para não enfrentar descompasso entre o intelectual e o emocional


Renata Losso, especial para o iG São Paulo

Foto: Getty Images Ampliar

Pular um ano é bastante comum na pré-escola, mas adiantamento deve ser definido pela maturidade da criança
As escolas brasileiras passaram por mudanças desde que a lei 11.274 foi aprovada em 2006. A nova lei ampliou o Ensino Fundamental para nove anos e deu até o final de 2011 para as escolas se adaptarem. O último passo já foi dado: a partir do ano que vem, só vão ingressar no primeiro ano do Fundamental os alunos com seis anos completos até 31 de março de 2012. A medida gerou uma corrida de pais dispostos a ir à Justiça para garantir que seus filhos entrem no Ensino Fundamental antes do estabelecido. Mas é bom para a criança estar adiantada?

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Pular um dos anos da Educação Infantil não é incomum. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a filha da professora universitária Michele Cunha Franco, de 43 anos. Quando Sofia cursava o que antes era conhecido como Jardim, nível anterior ao Pré, os professores perceberam que ela terminava as atividades muito antes das outras crianças. Receosos de que ela perdesse o interesse pela escola, já que não passava por desafios, sugeriram à mãe adiantar a filha. “A Sofia era mais madura: entre três e quatro anos ela não queria brincar de boneca e vivia me pedindo para ensiná-la a ler”, conta a mãe, que atendeu ao pedido.

Com brincadeiras improvisadas, Michele acabou iniciando a alfabetização da filha, que aos cinco anos já sabia ler e escrever. Na escola, avaliaram que Sofia não poderia ficar em uma sala de sua própria faixa etária, já que acabaria achando a escola um tédio.

O mesmo estava prestes a acontecer com a filha da secretária Vania Rayhel, 52 anos, se ela não pulasse um ano da Educação Infantil. “A Jéssica não queria brincar, ela queria aprender a ler e escrever”, diz. A escola acabou mudando-a de ano e a menina chegou ao Pré antes do esperado. “Nós não queríamos forçá-la a nada, mas tudo acabou dando certo e ela acompanhou sem problemas”, declara Vania.

Ambas as mães comentam que o adiantamento na escola não prejudicou em nada o desempenho das filhas. Mas Michele assinala que se a filha tivesse pulado um ano por conta da ansiedade da mãe, o estímulo talvez não funcionasse. “O plano foi bem-sucedido porque não foi forçado: a iniciativa era dela”, diz.

A psicopedagoga Nívea Maria de Carvalho Fabrício, diretora pedagógica do Colégio Graphein, em São Paulo, concorda: antecipar o ingresso de uma criança no Ensino Fundamental apenas para atender às expectativas dos pais é prejudicial. “De forma geral, alfabetizar crianças aos cinco anos pode ser uma loucura”, completa.




Foto: Arquivo pessoal

Michele alfabetizou a filha Sofia em casa: aptidão intelectual precoce


Maturidade da criança vs. expectativas dos pais



Com 35 anos de experiência em direção escolar, Nívea comenta já ter visto de todo tipo de criança, inclusive as que chegaram mais cedo ao Ensino Fundamental. Para algumas, tudo deu certo até a chegada à universidade. Para outras, nem tanto. Saber se uma criança está pronta para ser adiantada ou não exige uma avaliação muito individual e completa. Se não for realmente madura, a criança pode se desorganizar com as novidades e se desinteressar, passando a se achar incapaz.

De acordo com a professora Neide de Aquino Noffs, psicopedagoga e diretora da faculdade de Educação da PUC-SP, outra questão deve ser levantada neste momento: a criança não vai acabar perdendo a infância mais cedo?

Para Neide, a criança de cinco anos precisa ter a infância preservada e não há a menor necessidade fazê-la começar no Fundamental tão cedo. “No passado, quando a criança era adiantada, acontecia de uma maneira mais natural e não se corriam tantos riscos”.

Ao pular um ano letivo, a criança enfrenta um descompasso entre o intelectual e o emocional, o que pode atrapalhar o desenvolvimento escolar. Uma forma de contornar o dilema seria apostar em atividades extracurriculares, capazes de saciar a curiosidade e a aptidão intelectual precoce. “Excepcionalmente, pode acontecer de uma criança estar além das outras. Mas, na maioria das vezes, a escola deve se adaptar a ela”, diz Neide.



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Alfabetização e adaptação



O processo de alfabetização costuma começar entre os seis e sete anos e pode acontecer mais rapidamente para algumas crianças do que para outras, mas de acordo com a orientadora pedagógica e educacional do Colégio Equipe, Luciana Fevorini, o aprendizado mais rápido não deve ser motivo para os pais verem em seu filho um pequeno gênio.

O adiantamento depende de uma mistura de capacidades – de leitura, escrita e habilidades matemáticas – que devem ser analisadas a fundo. “As expectativas exageradas da família em relação à alfabetização não é legal. As escolas precisam saber fazer uma avaliação correta neste momento, até mesmo do desenvolvimento corporal da criança, das capacidades sociais e cognitivas”, diz. Para ela, o ideal é realmente respeitar a idade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dislexia, daltonismo, problema na fala: eles tiram as diferenças de letra

 

Crianças contam como lidam com estes fatores no dia a dia e mostram que a detecção de uma condição adversa não precisa assustar


Flávia Pegorin, especial para o iG São Paulo

    Foto: Arquivo pessoal Ampliar
    Heloísa e o filho Bernardo: "tenho dislexia e não tenho vergonha"

    O último censo do IBGE aponta que 24% dos brasileiros sofrem de algum tipo de deficiência. As crianças não escapam às estatísticas – mas a maioria dos casos compreende diagnósticos leves, de situações perfeitamente contornáveis, adaptáveis ou mesmo curáveis. Naturalmente, grande parte dos pais fica preocupadíssima ao perceber um sintoma diferente em seu filho – ele não fala como as outras crianças, enxerga cores de um jeito diferente ou tem dificuldades específicas na escola. Mas o modo de encarar o problema e a busca por soluções ou melhoria na qualidade de vida da criança é o essencial nessa hora.

     
    A fonoaudióloga Renata Tramontina Ceribelli, especializada em crianças, diz que é comum pais e filhos chegarem ao consultório receosos e, em questão de minutos, abraçarem completamente o tratamento de fala.

    “Muitas pessoas demoram a procurar um fonoaudiólogo quando percebem a dificuldade na fala dos filhos. Muito porque os pediatras não estimulam, acreditando sempre que ‘vai passar’. Mas, na maioria dos casos, as crianças são bem mais rapidamente auxiliadas quando chegam cedo ao especialista”, diz Renata.

    Com exercícios de voz, no espelho e muitos jogos, o bom profissional da área logo conquista a atenção da criança – e, não raro, elas adoram fazer as sessões, pois percebem a própria melhora. Isso porque, nos primeiros anos de escola, é comum que os amigos notem e corrijam a criança que troca letras ou gagueja, por exemplo. “E esse é um motivo a mais para procurar ajuda: os pais também devem aprender a auxiliar o filho sem corrigi-lo seriamente a todo instante, o que pode prejudicar o tratamento”, lembra a fonoaudióloga.

     
    Foto: Arquivo pessoal
    Regina com as filhas Nadine, no alto, e Raissa: a caçula pergunta se "hoje é dia de fono"

    Foi uma das coisas que aprendeu a dona de casa Regina Cunha, mãe de Raissa, 4 anos, e Nadine, 12 anos. A caçula vem, há algumas semanas, tratando com sessões de fonoaudiologia as onze trocas de letras – um volume alto para a idade – que produzia ao falar. A professora da menina, Carla, por exemplo, vira “Caila” – uma troca séria para a faixa etária de Raissa. “A escola sinalizou o problema e decidimos procurar logo um especialista para que ela não virasse motivo de gozação entre os amiguinhos”, conta Regina.

    A previsão é que o tratamento de Raissa leve de seis a oito meses. Mas ela nem liga. Semanalmente vem a pergunta em casa: “mãe, hoje tem fono?”.“Acredito que a química entre a criança e quem a atende é determinante”, diz Regina. Raissa ama as sessões porque sua terapeuta inventa toda sorte de brincadeiras para mostrar a ela as correções.

    Bernardo e a almofada de pancadas

    Bernardo, de 12 anos, já sabe por exemplo que tem direito a mais tempo para resolver uma prova. O menino tem dislexia e, por conta disso, passou momentos difíceis até pais e professores perceberem o problema. “Bernardo tinha 8 anos quando fomos chamados na escola por causa do rendimento dele”, conta a mãe, a médica veterinária Heloísa Pappalardo Collet. Ele “comia” letras ao ler e escrever e tinha sérios problemas para ser alfabetizado. Todos achavam Bernardo “lento, imaturo”. A própria mãe, com grande sinceridade, conta que ela e o marido invariavelmente brigavam com o menino por causa das notas baixas e o obrigavam a estudar nos fins de semana.

    Com a ajuda da ABD, Associação Brasileira de Dislexia, Bernardo ganhou vida nova. Alegre, muitíssimo criativo e cheio de amigos, ele hoje comemora quando vai bem em uma prova e, com a nota alta em mãos, costuma lembrar a mãe: “hoje é dia de bater na almofada!”. A tal almofada foi confeccionada por Heloísa (“uma coisa feiosa que eu fiz em preto e laranja com a palavra ‘dislexia’ bordada”) – e quando Bernardo se sai bem, ganha licença para “esmurrar a dislexia”.

    “Nós aprendemos a lidar com o problema e ele mais ainda”, diz Heloísa. O garoto frequenta um colégio puxado em São Paulo e, apesar de ter um problemão para aprender alemão, no inglês ele vai muito bem graças às aulas de conversação. “Tenho dislexia e não tenho vergonha", diz orgulhoso para quem quiser ouvir.
     
    Foto: Arquivo pessoal Ampliar
    Enzo é daltônico: "tenho que avisar na escola e nem ligo"
     

    Enzo e os mapas escolares


    Esconder uma condição não é algo que as crianças precisem fazer. Enzo Facca, 12 anos, explica para os amigos, sem medo de ser feliz, que ele não enxerga a diferença entre certas cores. Enzo é daltônico – condição percebida pelos pais “em três etapas”, por volta dos 5 anos.

    “Primeiro, num jogo de futebol em que os times tinham camisas vermelhas e marrons, ele não entendia quem jogava para qual lado”, lembra a mãe de Enzo, Claudia. ”Depois foi um semáforo em pane, que piscava o verde e o vermelho, e ele não notava. Então um dia pedimos um livro que estava na estante e, com o nome escrito em vermelho no fundo verde, ele simplesmente não achava o volume”. conta.

    Com a suspeita inicial para lá de confirmada, o pai do menino se embrenhou no problema e vasculhou a rede atrás de sites e estudos sobre o daltonismo. Luiz soube, entre outras coisas, que apenas 8% da população sofre de daltonismo e o teste mais comum, o Teste de Ishihara, já está um pouco ultrapassado e detecta apenas o padrão da inversão de cores. Testes mais novos já podem mostrar, por exemplo, quais cores cada pessoa enxerga melhor e o grau de daltonismo.

    Enzo também já domina o assunto. “Faço os testes na internet de vez em quando só de brincadeira, junto com o meu pai. E sei que preciso avisar na escola quando não vejo alguma cor, como na hora de estudar mapas. Mas, fora isso, na maior parte do tempo, eu nem ligo de ter daltonismo”.
    Foto: Getty Images Ampliar
    Marca registrada do Facebook, o azul foi escolhido porque Mark Zuckerberg é daltônico

    Bahia e Minas Gerais podem perder as divisas dependendo das cores usadas, mas Enzo não perde sua confiança. Certo ele, pois o cotidiano mostra que lidar com pequenos percalços do corpo humano deve ser natural. Por exemplo: Mark Zuckerberg, fundador do celebrado Facebook, é daltônico - daí a cor azul dominante na rede social, já que Mark não distingue verdes e vermelhos. A lista de disléxicos famosos é ainda maior, contando com personalidades como Charles Darwin, Pablo Picasso e Walt Disney. Isaac Newton lidou com a gagueira por toda a vida, o cantor Justin Timberlake tem DDA e o ex-presidente Bill Clinton possui um sério caso de surdez. Coisas da vida, ora.

    segunda-feira, 21 de novembro de 2011

    Crianças negras ainda são preteridas por famílias candidatas à adoção

     

    Para advogada e mãe adotiva, cor da pele da filha é "um detalhe". Tempo de espera por adoção cai de oito anos para três meses se casais desistem de "perfil clássico"

     
    Agência Brasil | IG


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      Crianças negras ainda são preteridas por famílias candidatas à adoçãoPara advogada e mãe adotiva, cor da pele da filha é "um detalhe". Tempo de espera por adoção cai de oito anos para três meses se casais desistem de "perfil clássico"
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      Brasília – Três anos após a criação do Cadastro Nacional de Adoção, as crianças negras ainda são preteridas por famílias que desejam adotar um filho. A adoção inter-racial continua sendo um tabu: das 26 mil famílias que aguardam na fila da adoção, mais de um terço aceita apenas crianças brancas. Enquanto isso, as crianças negras (pretas e pardas) são mais da metade das que estão aptas para serem adotadas e aguardam por uma família.

      Foto: Marcello Casal JR/ABr
      A advogada Mirian Veloso e sua filha Camille: "medo de
      preconceito é ideia de quem ainda não adotou e tem essa visão"


      Apesar das campanhas promovidas por entidades e governos sobre a necessidade de se ampliar o perfil da criança procurada, o supervisor da 1ª Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal, Walter Gomes, diz que houve pouco avanço. “O que verificamos no dia a dia é que as família continuam apresentando enorme resistência [à adoção de crianças negras]. A questão da cor ainda continua sendo um obstáculo de difícil desconstrução”.

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      Hoje no Distrito Federal há 51 crianças negras habilitadas para adoção, todas com mais de 5 anos. Entre as 410 famílias que aguardam na fila, apenas 17 admitem uma criança com esse perfil. Permanece o padrão que busca recém-nascidos de cor branca e sem irmãos. Segundo Gomes, o principal argumento das famílias para rejeitar a adoção de negros é a possibilidade de que eles venham a sofrer preconceito pela diferença da cor da pele.


      “Mas esse argumento é de natureza projetiva, ou seja, são famílias que já carregam o preconceito, e esse é um argumento que não se mantém diante de uma análise bem objetiva”, defende Gomes. O tempo de espera na fila da adoção por uma criança com o perfil “clássico” é em média de oito anos. Se os pretendentes aceitaram crianças negras, com irmãos e mais velhas, o prazo pode cair para três meses, informa.

      Foto: Marcello Casal JR/ABr Ampliar
      Mirian e a filha: em cinco anos, ela foi questionada apenas uma vez sobre a diferença entre as duas



      "Quem espera deixa de ser feliz"


      Há cinco anos, a advogada Mirian Andrade Veloso se tornou mãe de Camille, uma menina negra que hoje está com 7 anos. Mirian, que tem 38 anos, cabelos loiros e olhos claros, conta que na rotina das duas a cor da pele é apenas um “detalhe”. Lembra-se apenas de um episódio em que a menina foi questionada por uma pessoa se era mesmo filha de Mirian, em função da diferença física entre as duas.
      “Isso [o medo do preconceito] é um problema de quem ainda não adotou e tem essa visão. Não existe problema real nessa questão, o problema está no preconceito daquela situação que a gente não viveu. Essas experiências podem existir, mas são muito pouco perto do bônus”, afirma a advogada.
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      Hoje, Mirian e o marido têm a guarda de outra menina de 13 anos, irmã de Camille, e desistiram da ideia de terem filhos biológicos. “É uma pena as pessoas colocarem restrições para adotar uma criança porque quem fica esperando para escolher está perdendo, deixando de ser feliz”.


      Para Walter Gomes, é necessário um trabalho de sensibilização das famílias para que aumente o número de adoções inter-raciais. “O racismo, no nosso dia a dia, é verificado nos comportamentos, nas atitudes. No contexto da adoção não tem como você lutar para que esse preconceito seja dissolvido, se não for por meio da afirmatividade afetiva. No universo do amor, não existe diferença, não existe cor. O amor, quando existe de verdade nas relações, acaba por erradicar tudo que é contrário à cidadania”, ressalta.

      (Reportagem: Amanda Cieglinski/Edição: Nádia Franco)

      quinta-feira, 10 de novembro de 2011

      Quais os limites da palmada?

       

      Caso do juiz que espancou a filha nos Estados Unidos reacende a discussão sobre como separar o propósito educacional dos maus-tratos

      Renata Losso, especial para o iG São Paulo

        Foto: Getty Images Ampliar
        Limite entre educação e maus-tratos nem sempre é claro
         
        Na polêmica discussão em torno do Projeto de Lei 7672, que pretende proibir os pais de punirem fisicamente os filhos, não há unanimidade. Enquanto alguns são contra a palmada, mesmo quando classificada como “educativa”, outros são determinantemente a favor dela como última opção. A acusação da norte-americana Hillary Adams ao pai, o juiz da vara da família William Adams, por tê-la agredido repetidas vezes com um cinto ao puni-la por desobediência, coloca palmadas e os puxões de orelha em xeque: como definir a linha que separa o propósito educacional dos maus-tratos?

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        Para a terapeuta infantil Denise Dias, autora do livro “Tapa na Bunda – Como impor limites e estabelecer um relacionamento sadio com as crianças em tempos politicamente corretos” (Editora Matrix), somente o bom senso pode determinar como os pais devem ou não agir. A especialista, que é abertamente a favor da “palmada pedagógica”, torna a questão simples de ser resolvida: um pai espancar a filha e justificar o ato como educativo é como um motorista alcoolizado ser pego no bafômetro e dizer que não estava bêbado. Não há o que discutir.

        Como adultos, devemos ter o discernimento de saber o que é certo e errado. Denise Dias defende o “tapa na bunda”, mas sabe que ele deve ser usado criteriosamente. “Se uma criança derruba um copo de suco de uva no sofá e a mãe o esbofeteia, ela é desequilibrada. Agora, se a criança atira um copo na parede de propósito, aí sim ela merece um tapa na bunda – para deixar claro que ela ultrapassou todos os limites”. Porém, fica a questão: como saber se os pais também não estão ultrapassando limites?

        Palmada serve para quê?

        Em um país com tantos pais a favor da palmada como forma de educar os filhos, vale refletir sobre como os limites costumam ser colocados dentro de casa. De acordo com a terapeuta familiar Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), se as crianças compreenderem que precisam ser, de alguma forma, agredidas para serem educadas, estaremos criando uma geração que fará o mesmo com os próprios filhos. “Esta não é a melhor escolha”, defende.
         
         
        Foto: Getty Images Ampliar
        Frequência dos atos violentos é um indicador, mas perder a cabeça na hora da raiva pode ser mais fácil do que se imagina
         
        Segundo a psicopedagoga, a palmada não é necessária e um simples castigo, sem qualquer agressão envolvida, já é bem educativo. O importante mesmo é a criança entender as consequências dos próprios atos. “O limite, portanto, é colocado naquilo em que o pai não joga a própria raiva em cima”, diz. Para a especialista, violência só gera violência e não deve fazer parte da educação. Existe um objetivo a ser atingido quando se mostra um limite para uma criança. Um pai ou mãe em pleno acesso de raiva tende a perder de vista este objetivo.

        De acordo com a psicóloga Camila Guedes Henn, do Núcleo de Infância e Família (NUDIF) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), bater pode fazer com que a criança se sinta com medo e desconfiada. Se não houver uma explicação sensata para o ocorrido, pior ainda.

        Tanto a psicóloga quanto Quézia discordam que um pai deva ser condenado por uma palmada. Mas tampouco acreditam ser esta a forma mais efetiva de educar. “O limite deveria ser demonstrado com um castigo proporcional à idade da criança, uma punição que mostre as consequências daquilo que ela fez”, afirma Henn. A criança pode acabar obedecendo aos pais simplesmente por medo de levar um puxão de orelha, e não por ter entendido que fazer um escândalo quando não consegue um brinquedo é errado.


        Foto: AP Ampliar
        Hillary Adams, filha do juiz William Adams, postou na rede um vídeo em que aparece sendo espancada pelo pai
         
         
        Discurso firme
        Se as palmadas ou puxões de orelha forem recorrentes, a situação pode ser realmente perigosa. Alguma coisa está fora de controle e os pais não devem seguir este caminho.

        É preciso estar atento, portanto, à dinâmica de cada casa. Para a psicanalista Vera Zimmermann, coordenadora do Centro de Referência da Infância e Adolescência (CRIA) da Unifesp, as características culturais também contam neste momento: “Algumas famílias gritam muito e isto nunca foi sentido como agressão. No entanto, outras famílias podem produzir reações ruins somente com a alteração do tom de voz”. O mesmo acontece com as crianças. Elas podem ou não se sentir mal com uma mesma repreensão. Mas bater, principalmente bater além da conta, não é uma tática justificável.


        “A melhor correção é a firmeza na atitude e na fala”, comenta Vera. Quando não funcionar, deve-se apelar para a restrição daquilo que a criança gosta, sempre deixando claro o que é causa e o que é efeito. “Manter a autoridade com firmeza não significa violência física, nem verbal”, completa.


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        9 passos para impor limites