quinta-feira, 7 de julho de 2011

Erros gramaticais não são eliminatórios, mas prejudicam imagem

Baixa qualidade de ensino e uso de linguagem informal fazem recrutadores serem mais tolerantes

Maria Carolina Nomura, iG São Paulo
 
Enquanto caminhava por uma rua na Vila Olímpia, bairro nobre de São Paulo, o gerente de projetos em internet Celso Bessa deparou-se com o cartaz de um restaurante que anunciava que aquele era dia de “lazanha à balanhesa” e “talharim com almondas”. Apesar de os erros gramaticais não terem sido a principal razão para Bessa passar reto pelo restaurante, eles foram um fator de discriminação. “Em um local como aquele, a escrita errada poderia determinar se as pessoas entrariam lá ou não”, diz Bessa.
Se um restaurante pode ser eliminado por conta de erros em seu letreiro, o mesmo não acontece obrigatoriamente com um candidato a uma vaga de trabalho, mas há um risco. Valéria Gomes, consultora sênior da Cia de Talentos, afirma que existe uma enorme tolerância com os erros de português. “Infelizmente, estão matando a nossa língua. Hoje, deslizes gramaticais não são mais eliminatórios porque a maioria das pessoas erra”, afirma.

Polêmica

Foto: Arquivo Pessoal
Sônia Helena Garcia: Fala-se tanto em dominar outros idiomas, mas as pessoas se esquecem de priorizar a nossa língua
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Valéria diz ainda que, em seis anos de consultoria e vendo mais de 3.000 candidatos por ano, encontrou apenas dois que tinham um português brilhante. “O problema também é que se você for mais purista na língua é tido como erudito. O normal é errar e existe um movimento de aceitação desse erro.”

A polêmica sobre a distribuição pelo Ministério da Educação (MEC) do livro “Por uma Vida Melhor”, que continha erros de concordância, é um retrato disso. Um dos trechos dizia: “'Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado'. Você pode estar se perguntando: 'Mas eu posso falar 'os livro?'.' Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.”

Sônia Helena Garcia, diretora-executiva da Ricardo Xavier Recursos Humanos, diz sentir um declínio notório no ensino e conta que vê profissionais em altos cargos cometendo vícios de linguagem. “Fala-se tanto em dominar outros idiomas, mas as pessoas se esquecem de priorizar a nossa língua”, lamenta.

Há ainda os erros gramaticais regionais, aponta Valéria. “No Rio de Janeiro, é comum dizer ‘tu vai’. Isso pode agredir os ouvidos dos paulistas que, por sua vez, são acostumados a dizer ‘um shorts, um óculos’, o que também soa estranho ao carioca.”

Má impressão

Celso Bessa conta que apesar de não ser eliminatório, os erros gramaticais contam negativamente contra um candidato ou um fornecedor de serviços, em especial em determinadas áreas específicas. “Eu tendo a ser mais exigente com pessoas que eu acho que deveriam saber a norma culta. Por exemplo, jornalistas e advogados.”

Para Valéria, da Cia de Talentos, a solução para encontrar candidatos ideais é fazer triagens com testes de múltipla escolha. “Avaliamos se eles têm um bom padrão acadêmico por conta da interpretação de textos e da semântica.”

Mas, apesar do estudo e da leitura constante, ninguém está livre de cometer erros. A publicitária Tatiana Pilon confessa que já tropeçou no idioma. “Eu era gerente de marketing de uma empresa que vendia e consertava equipamentos. Ao escrever os cartões de visita, troquei consertos por concertos. Tive que arcar com o prejuízo e desde então, releio tudo o que escrevo.”

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