sábado, 30 de outubro de 2010

Tudo ao mesmo tempo agora


Com a atenção das crianças dividida entre vários estímulos tecnológicos, pais têm de determinar quando é hora de por limites

Alexandra Moraes, especial para o iG São Paulo


Um olho na tela do computador, outro no dever de casa, e, entre uma coisa e outra, uma conferida rápida na TV. As mãos digitam mensagens no celular ou mudam as faixas no iPod, e os ouvidos estão ocupados por fones. A atenção das crianças é disputada a tapa por todo tipo de estímulo, e elas conseguem responder a todos esses chamados com o que parece ser uma capacidade cada vez mais precoce de administrá-los ao mesmo tempo. Uma pesquisa do canal infantil Cartoon Network concluída no primeiro semestre deste ano mostrou que 73% das crianças brasileiras com idades entre 7 e 15 anos são multitarefas. A interação das crianças com a tecnologia começa com a TV, passa por videogame e computador e, na pré-adolescência, costuma incorporar o celular.

 
Outro estudo, feito em 2007 pelo grupo de marketing NPD, indicava que crianças de dois anos frequentemente já faziam mais de uma coisa ao mesmo tempo. Outras pesquisas e especialistas, porém, demonstram que o hábito de se desdobrar entre múltiplas tarefas, às vezes tido como desejável para se integrar ao caráter fragmentado e cheio de estímulos do cotidiano, pode na verdade contribuir para que não se faça nenhuma delas da melhor maneira.

 
Um estudo de neurocientistas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Estados Unidos, mostrou que, ao executar mais de uma tarefa ao mesmo tempo, o sistema nervoso ativa um tipo de memória diferente daquele colocado em operação quando a tarefa é apenas uma. Numa situação multitarefas, é ativada a chamada memória não declarativa, procedural, a mesma que armazena informações para executar atos que se tornam quase automáticos, como andar de bicicleta. O resultado é o grau de consciência e aprendizado diante de mais de um estímulo ao mesmo tempo é menor que numa situação em que estamos concentrados em apenas uma coisa, quando a memória ativada é a consciente.

 
Para a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora da UFRJ e autora do livro “Fique de Bem com Seu Cérebro”, há exagero quando se fala do caráter multitarefas das crianças de hoje. “Você não fazia dever de casa ouvindo música ou vendo televisão? E, antes disso, nossos pais não faziam dever de casa ouvindo rádio ou na mesa da cozinha, enquanto a mãe cozinhava por perto?”, questiona. Para ela, sempre houve excesso de estímulo. “De todos os estímulos que recebemos ao mesmo tempo a cada instante – e não é preciso internet para isso – só conseguimos dar atenção a um. Não importa se criança ou adulto, a consequência de tentar fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo é que se corre o risco de nenhuma delas ser feita direito”.

Guiherme Polanczyk, professor doutor de psiquiatria da infância e adolescência da Universidade de São Paulo, lembra que, independentemente de avanços tecnológicos e da velocidade da informação, “conhecimentos sólidos se adquirem com leitura, com aprofundamento”. Assim como a construção de relacionamentos interpessoais sólidos. “Se as crianças aprendem que o conhecimento e os relacionamentos são instantâneos, se não aprendem a se aprofundar, a ter paciência, a esperar, a tolerar a frustração, pode sim haver prejuízos importantes na formação da personalidade”, afirma.

 
Dosagem de estímulos

 
Os estímulos são positivos se sua natureza é adequada e se oferecidos na dose correta, diz Guilherme. A tarefa importante dos pais é justamente procurar dosar esses estímulos, especialmente porque a habilidade multitarefas só passa a ser mais desenvolvida depois da adolescência. "O desenvolvimento é acompanhado de uma progressiva capacidade de coordenar informação e conduta, e até mesmo no final da adolescência essa habilidade continua se desenvolvendo", afirma o psicólogo Cristiano Gomes, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "O importante, na realidade, é ajudar a criança a desenvolver essa habilidade". O bom senso é ainda o que pode mensurar e frear os excessos – tanto das crianças quanto dos pais, que podem tomar um fenômeno cultural como doença.

Para qualquer caso, no entanto, o recomendado é que se tenha atenção às atividades e às respostas das crianças. “Envolver-se com muitas tarefas ao mesmo tempo e não concluí-las pode ser um indicativo de problemas de atenção. Caso existam outros sintomas de desatenção, que se manifestam em diferentes locais e que ocorrem de forma intensa e persistente, trazendo problemas para a vida da pessoa, podemos estar diante do transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, mais conhecido pela sigla TDAH”, afirma Polanczyk.

 
Ele dá exemplos de como o mero processamento de vários estímulos ao mesmo tempo não é necessariamente um problema: um controlador de tráfego aéreo precisa lidar com várias informações simultâneas buscando um objetivo, assim como um motorista que tem de chegar a um determinado destino. Mas somente quando a realização de tarefas diárias passa a se dar sempre dessa forma é que pode haver algum problema. “É necessária atenção em todas as fases, mas, sem dúvida, quanto menor a criança, maior a necessidade de que os pais estejam atentos para a qualidade e a quantidade do estímulo recebido”, recomenda.

 
"Os pais podem ajudar as crianças a fazer as coisas passo a passo, ensinando-as a controlar seu comportamento, observar o processo e desenvolver concentração, foco, paciência e capacidade de lidar com a frustração", destaca Cristiano Gomes. Para Suzana Herculano-Houzel, o melhor que os pais podem fazer é servir de modelo. “Os próprios pais podem atentar para essa limitação que todos têm e sempre tiveram, e não dar o exemplo de tentar fazer duas coisas ao mesmo tempo. Ensinar as crianças desde cedo a fazer uma coisa bem feita de cada vez é a melhor lição neste caso”, completa.
Como ajudar seu filho a conviver com as diferenças?


Pedagogos explicam que um dos principais pontos na educação inclusiva está na quebra dos preconceitos em casa

Camila de Lira, iG São Paulo
No Brasil, há mais de 385 mil alunos com necessidades especiais inscritos em escolas regulares do ensino público. Mesmo em minoria, eles apresentam um mundo diferente para os outros alunos, abrem espaços para novos tipos de interação e de relacionamento. Mas a questão é: será que apenas inserir as crianças com necessidades especiais em escolas comuns – um conceito chamado de educação inclusiva – faz com que as outras crianças consigam aceitá-los?

“A escola é o segundo modelo de sociedade com que a criança tem contato”, diz o professor William Sanches, autor do livro “Mais Respeito!” (Editora Mundo Mirim). “O primeiro modelo de sociedade vem da família”, completa. Sanches explica que as crianças mais novas tendem a tomar tudo que seus pais falam como verdades. Por isso, quando os pais demonstram preconceito, os filhos têm mais propensão a seguir este pensamento.

Maria das Dores Nunes, coordenadora pedagógica da Escola Estadual Clarisse Fecury, em Rio Branco, no Acre, afirma que uma das principais barreiras para o trabalho de educação inclusiva no local foi o preconceito dos pais. Neste ano, a escola ganhou o prêmio “Experiências Educacionais Inclusivas” do MEC e da Organização dos Estados Ibero-americanos, por causa de seus projetos efetivos de inclusão educacional. Nem sempre foi assim. Maria das Dores diz que, em 2004, quando a escola começou a colocar alunos especiais nas salas regulares, os pais das crianças estranharam. “No início não foi bem aceito, porque os pais dos alunos não tinham conhecimento sobre as condições destas crianças especiais”, fala.

Para fugir da hostilidade e do preconceito, a escola acreana optou por dar palestras e fazer reuniões com os pais das crianças. Segundo William Sanches, quando os pais aprendem sobre as condições destas crianças, conseguem encará-las com maior naturalidade – ato que será imitado pelos filhos. “O pai tem que ter consciência da naturalidade com que encara os fatos, para que a criança aja no mundo também de maneira natural”, afirma Sanches.

Nada de pena

De acordo com a coordenadora pedagógica do colégio paulistano Equipe, Luciana Bittencourt, as crianças menores tendem a encarar os alunos especiais com mais naturalidade. “As crianças menores veem que é uma pessoa como qualquer outra, com suas habilidades e suas dificuldades”, aponta. Sanches explica que quando as crianças crescem, alguns conceitos permanecem enraizados. Dessa forma, fica mais complicado mudá-los.

William Sanches e Maria das Dores concordam: um ponto importante, que deve ser discutido em casa, é o fato de que estes alunos especiais não devem ser vistos com um sentimento de pena. Afinal, a educação inclusiva busca também desenvolver ao máximo a independência das crianças portadoras de necessidades especiais. Se as outras crianças sentem dó e se prontificam a fazer tudo por elas, esse objetivo não será atingido. Sanches explica que os pais devem “mostrar para os filhos como eles podem ajudar de uma maneira solidária, mostrar para elas que as crianças especiais podem fazer as atividades ditas ‘normais’”, completa.

No final das contas, diz Sanches, ensinar uma criança a aceitar alguém com necessidades especiais não é diferente de ensiná-la a tratar pessoas fora dos padrões estabelecidos. Como educadora, Luciana ressalta que, para as crianças, esta é uma relação muito benéfica. “A diversidade amplia o repertório das relações. Certamente, no futuro, estas crianças serão pessoas que não sentirão necessidades de seguir os padrões”, completa.



sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Escolas americanas estimulam o fim do “melhor amigo”

Como forma de prevenir o bullying, pedagogos norte-americanos estimulam as crianças a terem um círculo maior de amizades

Camila de Lira, iG São Paulo

 
Duas crianças conversam, brincam e não se desgrudam o tempo todo. A cena é comum, mas agora está causando polêmica e sendo minada por pedagogos norte-americanos. Isso porque eles chegaram à conclusão de que este tipo de relação, onde há a figura do melhor amigo, pode ser destrutiva para as crianças. "Nós conversamos com os alunos e trabalhamos para que eles tenham um grupo maior de amigos, e que não sejam possessivas", declarou Christine Laycob, diretora da Mary Institute e do Saint Louis Country Day School, em St. Louis, ao jornal The New York Times.

Na reportagem do jornal norte-americano, Jay Jacobs, diretor do acampamento infantil Timber Lake, em Nova York, também defendeu a tese de que o melhor amigo pode ser prejudicial. Segundo ele, quando uma criança tem apenas um amigo, ela perde a habilidade de explorar as opções do mundo. "Além disso, pode ser devastador quando há uma briga entre as duas crianças", completa em entrevista ao jornal.

Para a psicopedagoga brasileira Carla Labaki, dificilmente uma relação de apenas duas crianças é horizontal, o que significa que uma acaba tendo o controle e o poder sob a outra. “Crianças que têm poucos amigos fatalmente enfrentam mais dificuldades em se relacionar com os demais".

Segundo os especialistas norte-americanos, ter apenas o melhor amigo não ajuda na construção da autoestima e pode fortalecer tendências possessivas em relações futuras. Mas a principal preocupação dos que defendem que a criança deve andar em grupo é o bullying. Eles justificam que os pares são frequentemente "atacados" por outras crianças. No acampamento de Jacobs, por exemplo, existem "conselheiros de amizades", que analisam as relações das crianças e agem quando elas começam a se tornar destrutivas: dividem os pares, os times e até mesmo separam os melhores amigos na hora do almoço.

"Grandes amizades não são desencorajadas, muito pelo contrário. Queremos apenas que nossas crianças não rejeitem ou excluam coletivamente seus colegas. No entanto, se percebemos que uma amizade entre duas crianças está sendo destrutiva, não hesitamos em separá-las", disse Jan Mooney, psicólogo daTown School, em Nova York, ao jornal.

A psicopedagoga Labaki afirma que esta é apenas uma forma de se prevenir o bullying, mas ela ressalta que a melhor maneira de prevenção continua sendo o diálogo constante. “É preciso ensinar às crianças sobre ética e respeito”, diz.

Suzana Leporace, coordenadora pedagógica do colégio Dante Alighieri, em São Paulo, acredita que nem sempre dá certo trabalhar com crianças em grandes grupos. "Algumas gostam de conviver com muitos amigos. Outras são mais tranquilas e preferem ter um relacionamento mais afetuoso com apenas uma pessoa. Depende muito de cada criança, e de como cada uma se desenvolve. É preciso respeitar as diferenças ", diz.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

"O bullying é um ato covarde"


Ana Beatriz Barbosa, autora do best-seller “Mentes Perigosas”, lança livro sobre bullying na escola

Renata Losso, especial para iG São Paulo


Após o sucesso de “Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado”, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa parte agora para o tenso universo escolar. Ela acaba de lançar o livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas” (Editora Fontanar), em que trata de um dos maiores dramas entre as crianças e jovens hoje em dia: o bullying, um comportamento agressivo e repetitivo cometido por um indivíduo (ou um grupo) com o objetivo de intimidar alguém.

 
Em entrevista ao iG Delas, ela afirma que, além da mudança comportamental dos pais perante ao filhos, a escola também deve se impor contra o bullying, e alerta: para as vítimas, geralmente crianças e jovens com problemas de autoestima, as consequências psicológicas podem ser dramáticas e irreparáveis.

iG: Quais são os principais problemas que a vítima de bullying enfrenta?

Ana Beatriz: As consequências são as mais variadas e dependem muito de cada indivíduo, da sua estrutura, vivências, pré-disposição genética, da forma e da intensidade das agressões. Os agressores (bullies) sempre escolhem um aluno-alvo que se encontra em franca desigualdade de poder e que já apresenta baixa autoestima. É um ato covarde. Os problemas mais comuns que observo em consultório são: desinteresse pela escola, problemas psicossomáticos (desconforto abdominal, taquicardia, suores, dor de cabeça, doenças autoimunes, insônia, falta de concentração); problemas psíquicos e comportamentais, como transtorno do pânico, TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), TEPT (transtorno do estresse pós-traumático), depressão, anorexia e bulimia, fobia escolar (medo patológico de frequentar a escola), fobia social (timidez excessiva) e ansiedade generalizada. O bullying também pode agravar problemas pré-existentes, devido ao tempo prolongado de estresse que a vítima é submetida. Em casos mais graves, quadros de esquizofrenia, homicídio e suicídio.

iG: Em seu livro você cita diferentes formas de bullying, verbal, físico e até virtual. Existe uma que seja mais maléfica, que pode provocar danos ainda maiores à vítima?

Ana Beatriz: Todas as vítimas, sem exceção, sofrem com os ataques de bullying. Muitos levarão marcas profundas provenientes das agressões para vida adulta, e necessitarão de apoio psicológico para a superação do problema. Uma das formas mais agressivas de bullying, que vem ganhando espaços, é o ciberbullying ou bullying virtual. Os ataques ocorrem através de ferramentas tecnológicas como celulares, filmadoras, máquinas fotográficas, internet e seus recursos (e-mails, sites de relacionamentos, vídeos). Além da propagação das difamações serem praticamente instantâneas, o efeito multiplicador do sofrimento das vítimas é imensurável. O ciberbullying extrapola, em muito, os muros das escolas e expõe a vítima ao escárnio público. Os praticantes dessa modalidade se valem do anonimato e, sem qualquer constrangimento, atingem a vítima da forma mais vil possível.

iG: Por que o bullying ocorre? E como os pais podem interferir?

Ana Beatriz: O bullying escolar ocorre desde que existe a instituição de ensino. Porém, a partir da década de 80, passou a ser objeto de estudos e campanhas antibullying no mundo todo, em função da proporção gigantesca que vem alcançando. O individualismo, cultura dos tempos modernos, também propicia essa prática, com distorções absurdas de valores éticos. Vivemos em tempos velozes, com grandes mudanças em todas as esferas sociais. Nesse contexto, a educação se tornou rapidamente ultrapassada, confusa, sem parâmetros ou limites. Os pais passaram a ser permissivos em excesso e os filhos cada vez mais exigentes e egocêntricos. Para que os filhos sejam mais éticos é necessário primeiro rever o que ocorre dentro de casa. Os pais, muitas vezes, não questionam suas próprias condutas e valores, eximindo-se da responsabilidade de educadores. Por outro lado, este ambiente doméstico também pode ser extremamente hostil e desestruturado, e é ali que a criança está se desenvolvendo. O resultado disso tudo é bombástico: os filhos tendem a se comportar em sociedade de acordo com os modelos domésticos. Muitos deles não se preocupam com as regras sociais, não refletem sobre a necessidade delas no convívio coletivo e sequer se preocupam com as consequências dos seus atos. É obrigação de todos auxiliá-los e conduzi-los na construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.

 
iG: Quais são as principais características que uma criança agressora costuma demonstrar?

Ana Beatriz: Na escola, os bullies fazem brincadeiras de mau gosto, gozações, colocam apelidos pejorativos, difamam, ameaçam, constrangem e menosprezam alguns alunos. Perturbam e intimidam, por meio de violência física ou psicológica. Furtam ou roubam dinheiro, lanches e pertences de outros estudantes. Costumam ser populares na escola e estão sempre enturmados. Divertem-se à custa do sofrimento alheio. Já no ambiente doméstico, mantém atitudes desafiadoras e agressivas. São arrogantes ao agir, falar e se vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para se safar das confusões em que se envolveram. Costumam voltar da escola com objetos ou dinheiro que não possuíam. Muitos agressores mentem, de forma convincente, e negam as reclamações da escola, dos irmãos ou dos empregados domésticos.

 
iG: O que os pais devem levar em consideração para evitar que uma criança cometa o bullying?

Ana Beatriz: Os pais precisam primeiramente identificar que tipo de agressor ele é. A maioria se comporta assim por nítida falta de limites. Outros não têm um modelo educacional que associe autorrealização pessoal com atitudes socialmente produtivas e solidárias. O agressor também pode estar vivenciando momentos de dificuldades circunstanciais (como doenças na família, separação dos pais ou estar sofrendo bullying também). Uma minoria, porém, é composta por transgressores sociais com estrutura de personalidade genuinamente maldosa (chamada transtorno da conduta ou delinquência). Em todos dos casos, o problema requer uma postura atenta e proativa por parte dos pais.

iG: Qual o papel da escola para evitar o bullying?

Ana Beatriz: A escola é corresponsável nos casos de bullying, pois é nela que os comportamentos agressivos e transgressores se evidenciam ou se agravam. É ali que os alunos deveriam aprender a conviver em grupo, respeitar as diferenças, entender o verdadeiro sentido da tolerância em seus relacionamentos interpessoais, que os norteiam para uma vida ética e responsável. Infelizmente, a instituição escolar é o cenário principal dessa tragédia endêmica, que por omissão ou conivência, facilita a sua disseminação. A direção da escola (como autoridade máxima da instituição) deve acionar os pais, o Conselho Tutelar, os órgãos de proteção à criança e ao adolescente etc. Admitir que o bullying ocorre em 100% das escolas do mundo todo (públicas ou privadas) é o primeiro passo para o sucesso contra essa prática indecorosa. Mudanças estruturais educacionais são imprescindíveis.

iG: Normalmente existem mais meninos ou meninas que cometem bullying?

Ana Beatriz: Estudos revelam um pequeno predomínio dos meninos sobre as meninas. No entanto, por serem mais agressivos e utilizarem a força física, as atitudes dos meninos são mais visíveis. Já as meninas, costumam fazer bullying mais na base de intrigas, fofocas e isolamento das colegas. Podem, com isso, passar despercebidas, tanto na escola quanto no ambiente doméstico.

iG: Além das vítimas, que na maioria das vezes são crianças com baixa autoestima, é possível que os agressores também tenham este tipo de problema?

Ana Beatriz: Sim. Alguns agressores foram ou ainda são vítimas de bullying e acabam por praticar os mesmo atos contra alunos mais frágeis do que eles, na tentativa de ganhar respeito ou por agressividade contida. Outros podem estar vivenciando momentos difíceis em seus próprios lares, descarregando essa frustração em seus pares. E existem aqueles que seguem os “mentores” das agressões por medo de serem as próximas vítimas ou ainda para se tornarem mais populares.

iG: Você cita em seu livro casos de algumas pessoas que foram vítimas do bullying, mas que superaram e obtiveram sucesso na vida adulta. Como os pais podem ajudar os filhos a superar o sofrimento?

Ana Beatriz: A identificação precoce do bullying pelos responsáveis é de suma importância. As crianças normalmente não contam aos pais o sofrimento vivenciado na escola, por medo de represálias e por vergonha. A observação dos pais sobre o comportamento dos filhos é fundamental, bem como o diálogo franco entre eles. Se for necessário, buscar ajuda profissional, com psiquiatras e psicólogos, para superar traumas, marcas profundas e transtornos psíquicos. A percepção do talento inato desses jovens pode fazer grande diferença lá na frente. Os adultos devem sempre estimulá-los e procurar métodos eficazes para que esse dom seja exercido. Isso vale tanto para que se sintam melhores consigo mesmos quanto para que desenvolvam, com maior eficácia, toda a potencialidade que eles manifestam desde cedo.
Como lidar com um filho que pratica bullying?


Da conversa franca à participação em projetos de voluntariado, especialistas recomendam sempre firmeza e amor

Clarissa Passos, iG São Paulo
Em setembro de 2004, três estudantes adolescentes de Carazinho, cidade de cerca de 60 mil habitantes no Rio Grande do Sul, criaram um fotolog com fotografias alteradas digitalmente. O alvo das fotomontagens era um colega de classe dos três - que, ofendido com o que os autores consideravam só uma "brincadeira", entrou com um processo por bullying contra o provedor do fotolog e o responsável pela conta de onde partiam as postagens - no caso, a professora Solange Ferrari, mãe de um dos garotos do grupo.

Três anos depois, em dezembro de 2007, Solange foi surpreendida por uma intimação. "Nem sabia do que se tratava", relembra. Ela telefonou para o filho, que já havia atingido a maioridade e morava na Itália. "Foi aí que ele me explicou", conta ela. Solange, que mal sabe postar um foto na internet, foi condenada este mês em segunda instância, em decisão inédita no estado. Ela deve pagar R$ 5 mil de indenização, corrigidos, à vítima de bullying - que hoje estuda não só na mesma universidade que o filho dela, como também na mesma classe. "Eles não se falam e meu filho diz que o que ele mais sente é o fato de eu ter de pagar por algo que ele fez".

Solange, que recorreu da decisão, lamenta que um jovem com idade considerada suficiente para escolher os governantes não seja responsabilizado pela Justiça. "Se eu tivesse sido informada da história, teria tomado as providências necessárias", declara. Certamente ela seria mais rápida que a Justiça, mas quanto à responsabilidade da condenação, sob o ponto de vista do Código Civil, não há dúvidas: o artigo 932 enuncia que "são também responsáveis pela reparação civil os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia". "É bem claro: do ponto de vista da lei, os pais são responsáveis pelos atos dos filhos", diz o promotor Lélio Braga Calhau, autor do livro "Bullying: o que você precisa saber" (Editora Impetus).

Antes que os casos cheguem aos tribunais, o que os pais podem fazer quanto aos filhos que praticam o bullying?

Para o psiquiatra e terapeuta Içami Tiba, os pais devem tomar medidas sérias quando descobrem que o filho pratica bullying. "Eles precisam impor consequências. Não adianta só papo. Precisa ter ação", recomenda ele, que sugere a ida a trabalhos voluntários com a criança. O tipo de trabalho pode ser escolhido de acordo com a idade do seu filho: os mais novos podem visitar creches para brincar ou ler histórias para as outras crianças. Adolescentes podem ajudar a fazer sopa para os sem-teto.

 
Içami descarta a matrícula em uma atividade física mais puxada ou mesmo em uma academia de luta ou artes marciais, caminho escolhido por muitos pais que consideram essa uma boa solução para "canalizar" a agressividade do filho. A conversa sempre é boa, mas a ação deve ser eficaz e compete aos pais. "O que não pode é deixar barato", alerta Içami, autor de "Adolescentes: quem ama, educa" (Integrare Editora), entre outros títulos voltados para educação e desenvolvimento.

O amor não muda

Muitos pais entendem o bullying como uma qualidade, confundindo agressividade com um comportamento de liderança. "Já estive em reuniões de escolas em que o pai, ao saber das atitudes do filho, dizia que ele era um 'líder', enquanto que as outras crianças eram 'babacas'", testemunha o pediatra Aramis Antonio Lopes Neto, autor de "Diga não ao bullying". "Os pais precisam entender que aquilo é um problema para então conversar com os filhos, conhecer a vida social deles", explica.

Algumas vezes, o comportamento agressivo é desengatilhado por experiências traumáticas, de violência familiar ou social, como discussões entre os pais, separações na família, um sequestro ou um assalto. Nestes casos, Aramis sugere o acompanhamento terapêutico para a criança. Mas para ele, impedir o bullying é uma questão de conscientização que deve ser feita pela escola e pelos pais. "Pais que lidam com filhos que praticam bullying devem deixar muito claro que o amor deles pela criança ou adolescente não muda, mas que eles absolutamente não aprovam esse tipo de comportamento", defende. "Ele pode ter se tornado agressivo porque tem um problema, então não pode ser marginalizado por isso", finaliza.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

35 estudantes de escolas públicas farão intercâmbio nos EUA

Programa Jovens Embaixadores, do governo norte-americano, anuncia os alunos brasileiros premiados na edição 2011

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Os nomes dos 35 estudantes de escolas públicas de 26 Estados brasileiros que vão participar do Programa Jovens Embaixadores 2011 foram anunciados nesta terça-feira (26) pelo cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas Kelly, e pelo embaixador norte-americano, Thomas Shannon, durante um evento na capital paulista. O programa seleciona jovens com idades entre 15 e 18 anos para um intercâmbio cultural gratuito de três semanas nos EUA (entre 8 e 27 de janeiro do próximo ano), promovido pela Embaixada do país.
Foto: Marina Morena Costa/iG
O embaixador norte-americano no Brasil, Thomas Shannon, durante o anúncio dos finalistas

Esta é a 9ª edição do programa que, desde a sua criação em 2003, já beneficiou 212 jovens brasileiros. O número de inscritos desta edição superou seis mil jovens e mobilizou 64 instituições parceiras da Embaixada dos EUA para selecionar os finalistas. Para participar do processo seletivo, é preciso ter bom desempenho na escola, fazer serviço social em sua comunidade e dominar suficientemente o inglês para morar com uma família americana e conseguir se comunicar.

“Estes 35 estudantes representam o melhor da juventude brasileira. São jovens que buscaram a liderança, atuantes e têm o desejo de serem bons cidadãos”, afirmou Shannon durante o anúncio dos finalistas. Para o embaixador o programa fortalece a educação pública brasileira, “base de um país exitoso”. Um 36º jovem embaixador ainda será selecionado por meio de votação pública no site do programa Jovens Embaixadores.

Marco

“Uma experiência transformadora” ou a mesma frase em inglês “A life changing experience” são as expressões mais usadas pelos os ex-jovens embaixadores para definir o intercâmbio cultural. Para Simon do Vale de Nascimento, de 23 anos, participante do programa em 2005, a experiência rendeu uma graduação em Relações Internacionais na conceituada Universidade de Chicago e um emprego no escritório de recrutamento de estudantes da instituição.
Foto: Marina Morena Costa/iG
Euriane e Simon participaram da edição de 2005 do programa Jovens Embaixadores

“Venho de Catalão, em Goiás, e o programa me mostrou do que eu era capaz. Não tinha ideia de onde eu poderia chegar, mas depois decidi tentar a Universidade de Chicago e fui aceito”, conta. Após se formar, Simon foi convidado a trabalhar na instituição e viajar para América Latina, África, Oriente Médio e Sul da Ásia para recrutar novos talentos. “Abro oportunidades para candidatos, assim como abriram para mim.”

Euriane Aparecida Mendes, de 23 anos, também jovem embaixadora em 2005, optou por cursar direito depois de participar do programa. “Eu tinha um projeto de educação ambiental na minha escola, em Patrocínio (MG). E o programa nos mostrou na prática como práticas simples, na sua comunidade, podem impactar o mundo”, lembra. Depois do programa americano, Euriane foi selecionada no ano seguinte para participar do Jovens Embaixadores Ambientalistas, realizado na Alemanha. Hoje a estudante quer se especializar em direito ambiental ou internacional.

Jovem embaixadora em 2010, Gabrielle Cavalheiro, de 18 anos, participou de um encontro com Michelle Obama e voltou dos EUA decidida a ser diplomata. “Fomos representar o Brasil fora e eu quero fazer isso mais vezes, levar um pouco do nosso País e trazer mais dos outros países para cá”, afirma a estudante de direito.

O programa

Na primeira etapa da viagem, que ocorre em janeiro de 2011, o grupo passa uma semana em Washington visitando instituições do governo, museus, participando de reuniões com autoridades e aprendendo sobre a cultura dos EUA. Depois, os alunos passam duas semanas hospedados em casas de famílias americanas em diferentes estados do país. Eles também irão frequentar aulas em uma escola de ensino médio (“high-school”) onde conhecerão o dia-a-dia do jovem estudante americano e farão apresentações sobre o Brasil. Os jovens devem ainda desenvolver um plano de ação para o fortalecimento do seu projeto de voluntariado no País.

Segundo o embaixador americano, o programa pioneiro no Brasil é considerado “modelo” para os estabelecidos posteriormente em outros 17 países. “Em 2011, vamos expandir para 25 países. O sucesso do programa brasileiro convenceu o governo americano e expandir essa oportunidade”, afirma.

Veja a lista dos selecionados:

1. Denis Tavares dos Santos Júnior, 17 anos, Rio Branco - AC
2. Ana Carolina Araújo Lima, 17 anos, Manaus - AM
3. Rízia Vitória da Silva Pinheiro, 17 anos, Macapá - AP
4. Ramon da Silva Sampaio, 18 anos, Salvador - BA
5. Breno Oliveira de Jesus, 16 anos, Salvador - BA
6. Francisca Joele Dias Balbino, 18 anos, Sobral - CE
7. Lunara Farias Lima, 15 anos, Quixadá - CE
8. João Guilherme Salve, 17 anos, Castelo - ES
9. Samantha Machado Rezende, 16 anos, Dores do Rio Preto - ES
10. Gabriel Santos de Morais, 16 anos, Goiânia - GO
11. Bárbara de Andrade César, 17 anos, São Luis - MA
12. Alexandre Henrique Lopes Silva, 17 anos, São Gotardo - MG
13. Lucas Alves Emanoel Efísio, 18 anos, Juiz de Fora - MG
14. Renato Martins Dornelas, 17 anos, Contagem - MG
15. João Alcim Souza João Neves, 17 anos, Campo Grande – MS
16. Laysa Mathias de Jesus, 16 anos, Sorriso – MT
17. Beatriz Silva da Costa, 18 anos, Tucuruí – PA
18. Maria Thamara de Lacerda Souza, 18 anos, João Pessoa – PB
19. Janailton Mick Vitor da Silva, 16 anos, Sanharó – PE
20. Marina Rocha de Jesus, 17 anos, Olinda – PE
21. Manuela Fernandes Valente, 17 anos, Londrina – PR
22. Hyago Martins de Souza, 17 anos, Alto – PI
23. Maysa Leandro de Assis, 16 anos, Duque de Caxias – RJ
24. Déberth Cláudio da Silva Nascimento, 17 anos, Parnamirim – RN
25. Maria Jordana Mendes de Lima, 17 anos, Ji-Paraná – RO
26. Eva Marco Lima, 17 anos, Boa Vista – RR
27. Ítalo da Silva Alves, 17 anos, Três Coroas – RS
28. Ana Carolina Martins, 16 anos, Curitibanos – SC
29. Camille Mota Lima, 18 anos, Aracaju – SE
30. Tairik Adriano Mello Pio, 17 anos, Suzano – SP
31. Alan Douglas Dantas Silva, 18 anos, Hortolândia – SP
32. Alexandre Monçalo Neto, 16 anos, Dracena – SP
33. Gabriela Cristina Benevides Tom, 17 anos, São Paulo – SP
34. Natanael dos Santos Ferreira, 16 anos, São Paulo - SP
35. Danyel de Moraes Avelino, 17 anos, Combinado – TO

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Aborto ganha espaço em diversos países

Triplicou o número de nações que permitem o procedimento, revela ONU

BBC Brasil



Ao menos 20 países aprovaram leis de aborto mais liberais entre 1996 e 2009. A maioria deles adotou regras mais permissivas sobre a prática, apontam estudos recentes publicados pelas Nações Unidas e pelo Instituto Guttmacher, especializado em saúde reprodutiva.

Entre 1996 e 2009, ao menos 47 de 192 países da ONU aprovaram leis com artigos mais liberalizantes, segundo o World Population Policies 2009, da ONU. Nesse mesmo período, outros 11 países endureceram suas legislações sobre o tema.

Disputa eleitoral

Dos 47 países que liberalizaram sua legislação, ao menos 21 aprovaram leis com artigos mais liberalizantes que os do Brasil, onde o tema se transformou em uma das principais questões na reta final da campanha presidencial.

O assunto divide o partido da candidata do PT, Dilma Rousseff. O candidato do PSDB, José Serra, diz ser contra a legalização do aborto.

Nos 21 países que adotaram leis mais abertas que as do Brasil, entre as razões em que prática abortiva é autorizada estão o caso de haver má-formação fetal, de a mãe não ter condições socioeconômicas para criar o filho ou de a mãe solicitar o procedimento.

Panorama geral

Mas, no panorama geral, em 2009, "quase todos os países permitiam o aborto para salvar a vida das mulheres", relata o World Population Policies. A permissão ao aborto por desejo da mãe passou a valer em 29% dos países da ONU, ante 10% em 1980.

Em pesquisa do Instituto Guttmacher, as autoras Reed Boland e Laura Katzive, que se manifestam favoravelmente ao aborto, dizem que o motivo da tendência liberalizante é "o reconhecimento do impacto das restrições ao aborto nos direitos humanos femininos".

Os países ibéricos são exemplos de liberalização. Em 2007, Portugal legalizou o aborto sem restrições até a 10ª semana de gestação e, depois desse período, em casos de má-formação fetal, de estupro ou de perigos à vida ou à saúde da mãe. Na Espanha, lei com termos semelhantes começou a vigorar neste ano.

No México, onde a legislação sobre o tema é estadual, a Cidade do México passou a permitir, em 2007, o aborto sem restrições de motivos até 12 semanas de gravidez. Na Colômbia, a Corte Constitucional determinou em 2006 que o aborto é legítimo em casos de estupro, má-formação fetal ou de riscos para a vida da mãe. Até então, a prática era proibida no país.

Leis mais duras

Há ainda países em que o aborto era totalmente ilegal, mas passou a ser aceito nos últimos anos se a mãe correr riscos ou se houver má-formação fetal (caso do Irã) ou de estupro (caso de Togo).

No mesmo período, Nicarágua e República Dominicana proibiram totalmente a prática, enquanto Argentina, Equador, Nicarágua, Iraque e Japão, entre outros, endureceram suas legislações a respeito, segundo a ONU.

O Uruguai chegou a aprovar o aborto no Congresso, dois anos atrás, mas a lei foi vetada pelo então presidente Tabaré Vázquez.

E o México viu movimentos ambíguos nos últimos anos: enquanto alguns Estados se espelharam na capital federal e passaram a ser mais permissivos, outros aprovaram emendas constitucionais punindo a prática abortiva com mais rigor.

Redução

Nos últimos 15 anos observou-se uma queda no número de abortos praticados no mundo: de estimados 46 milhões em 1995 para 42 milhões em 2003, segundo os últimos dados disponíveis pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

A metade deles foi feita de maneira insegura ou clandestina, estima-se. Especialistas ouvidos pela BBC Brasil não traçam, porém, paralelos entre a redução no número de abortos e a tendência liberalizante observada em muitos países.

"Estudos mostram que a chance de uma mulher fazer um aborto é praticamente a mesma onde o aborto é liberado e onde é restrito", explicou por e-mail Iqbal Shah, do Departamento de Pesquisas e Saúde Reprodutiva da OMS.

"Diversas pesquisas em países que legalizaram o aborto indicam que a prática pode inicialmente aumentar, mas depois é reduzida. Isso não ocorre por causa da legalização, mas porque abortos que antes seriam realizados clandestinamente passam a ser contabilizados (oficialmente) quando a lei muda."

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aborto supera câncer de mama em internações pelo SUS

Em 2010, a cada hora foram 12 internações por interrupção provocada da gravidez

Fernanda Aranda, iG São Paulo


A interrupção da gravidez provocada – sem ser a espontânea ou por motivos médicos – é um dos procedimentos que mais ocupa leitos dos serviços públicos e privados na área de saúde da mulher.

Nos seis meses primeiros meses de 2010 foram 54.339 internações por este tipo de ocorrência, uma média de 12 casos por hora.

Os números registrados entre janeiro e julho são 41% superiores à soma de internações por câncer de mama e câncer de colo do útero (38.532), duas doenças consideradas pelos governos federais, estaduais e municipais como grandes desafios de assistência ao sexo feminino.

O assunto saiu do anonimato diário de muitas mulheres para virar tema político. Neste segundo turno das eleições presidencial, José Serra (PSDB) e Dilma Roussef (PT) pautaram suas agendas para falar sobre – ou evitar – o tema.

Custos

O levantamento, feito pelo Delas no banco virtual do Ministério da Saúde, mostra ainda os custos do aborto provocado considerado crime pela legislação brasileira. No período analisado, foram gastos R$ 12,9 milhões para internar mulheres com hemorragias, infecções ou perfurações desencadeadas após o procedimento realizado em clínicas clandestinas. Para chegar ao dado, a reportagem excluiu do mapeamento o total de internações por "aborto espontâneo" (66.903 registros em seis meses) e "aborto por razões médicas" (905). Só foi considerada a categoria "outras gravidezes que terminam em aborto".

“São dados que mostram como a criminalização e a manutenção do aborto na clandestinidade são ineficazes do ponto de vista da saúde”, afirma o médico Thomaz Gollop, diretor da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e coordenador do Grupo de Estudo sobre o Aborto (GEA), que reúne médicos, psicólogos e juristas.

“Ainda que a legislação faça com que estas mulheres não possam ser atendidas inicialmente nos hospitais (para a realização do aborto) elas chegam depois, machucadas e em estado grave de saúde. Em Pernambuco, o aborto é a principal causa de morte”, diz Gollop, ao explicar porque considera a legislação atual um contrassenso.

Outros números

Além das internações por interrupção provocada da gravidez, outros números conseguem mapear a extensão do aborto no Brasil. Quando o procedimento não é completo, as mulheres submetidas a ele precisam recorrer a alguma unidade de saúde para fazer a curetagem – sucção de restos da placenta, do embrião ou do feto.

Segundo um estudo divulgado pelo Instituto do Coração (Incor) – divulgado este ano – a curetagem é o procedimento hospitalar mais realizado no País. Em média, são feitas 250 mil por ano, em valores que superam R$ 30 milhões.

No banco de dados do Ministério da Saúde, as notificações mostram que as curetagens são numerosas também no sistema privado de saúde. Das 110.483 feitas nos seis primeiros meses de 2010, 45.847 foram em unidades particulares (41,4% do total).

“O que precisa ser levado em conta é a diferença entre a condição de saúde das mulheres que chegam às unidades privadas de saúde e das que chegam às públicas”, afirma Margareth Arrilha, diretora da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), ligada ao Centro Brasileiro de Análise de Planejamento (Cebrap).

Segundo ela, a experiência mostra que as pacientes da rede pública chegam com sequelas mais graves, em decorrência dos procedimentos mais inseguros, feitos em locais sem a menor garantia de higiene ou pela ingestão de medicamentos sem qualidade.

Remédios falsificados

De acordo com as pesquisas, seminários e levantamentos feitos pela CCR, metade dos abortos realizados no País acontece por meio do uso de medicamentos. Neste processo, avalia Margareth, o procedimento que já acontece de forma insegura fica ainda mais perigoso. “As drogas são adquiridas em camelôs ou produzidas em indústrias de esquina”, diz.

As operações realizadas este ano pelo Ministério da Justiça, em parceria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que 42% dos 700 estabelecimentos fiscalizados este ano (drogarias, farmácias, laboratórios e academias) vendiam medicamentos falsos, contrabandeados ou sem procedência duvidosa. No total, foram apreendidas 60 toneladas de cápsulas. Apesar de não existir um ranking da classe destas drogas clandestinas, é sabido pelos técnicos que participam das fiscalizações que os abortivos – ao lado dos usados para disfunção erétil – são os mais falsificados e os mais vendidos ilegalmente.

As mulheres

O Ipas – entidade não governamental que atua na América Latina em favor dos direitos reprodutivos da mulher – fez uma pesquisa para traçar um perfil das que compram estes remédios ou fazem aborto no Brasil. Em sua publicação “O impacto da ilegalidade do aborto na saúde das mulheres e nos serviços de saúde em cinco Estados brasileiros” uma enquete foi aplicada a 2.002 mulheres, de 18 a 39 anos.

Das entrevistadas, 15% declaram já ter feito um aborto alguma vez na vida. “Projetado sobre a população feminina do País nessa faixa etária, que é de 35,6 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse número representaria 5,3 milhões de mulheres”, diz a publicação. Segundo o texto, o perfil é "de casadas, com filhos e religião".

O aborto é criminalizado no Brasil desde a legislação de 1940. No Sistema Único de Saúde (SUS) mulheres vítimas de violência sexual podem fazer o chamado aborto legal. A Igreja Católica e algumas alas da Evangélica recriminam a prática independentemente da circunstância da fecundação.

No ano passado, em Recife, uma menina de 9 anos, grávida de gêmeos após abusos do padrasto realizou o aborto legal. Na época, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, anunciou a excomunhão da garota, da mãe e dos médicos que atenderam a menina. O estuprador não foi excomungado. Pouco tempo depois, o presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Geraldo Lyrio Rocha, anunciou que a intenção era apenas chamar a atenção para um fato relevante e que uma excomunhão não significa uma condenação eterna.

domingo, 24 de outubro de 2010

Depressão infantil pode aparecer a partir dos 4 anos


O transtorno mental que mais atinge pacientes no mundo se aproxima das crianças, mas pode ser tratado – e, quanto mais cedo, melhor

Ana Carolina Addario, especial para o iG São Paulo


Sob a forma de noites mal dormidas, insociabilidade, tristeza, alterações de humor como irritação e choro frequente, sofrimento moral e sentimento de rejeição, uma epidemia silenciosa pode se espalhar entre as crianças de todo o país, independentemente de condição social, econômica e cultural. Provocada por fatores que vão desde a predisposição genética até a experiência de episódios traumáticos no ambiente familiar, a depressão infantil traz problemas de gente grande para a mente ainda em desenvolvimento das crianças.


Nos próximos 20 anos, a depressão deverá se tornar a doença mais comum do mundo, atingindo mais pessoas do que o câncer e os problemas cardíacos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Atualmente, mais de 450 milhões de pessoas são afetadas por transtornos mentais diversos, a maioria delas nos países em desenvolvimento.

Entre os pequenos, o índice de depressão também é preocupante. Nos últimos 10 anos, de acordo com a OMS, o número de diagnósticos em crianças entre 6 e 12 anos passou de 4,5 para 8%, o que representa um problema ascendente. "Setenta por cento dos adultos que apresentam quadro de depressão crônica têm histórico desde o período da infância. Ou seja, se não tratarmos o paciente enquanto criança, podemos contribuir para que ele se transforme em um adulto depressivo", conta Fábio Barbirato Nascimento da Silva, neuropsiquiatra especialista em infância e adolescência da Associação Brasileira de Psiquiatria.

O transtorno pode ser diagnosticado em crianças a partir dos 4 anos. Até os 9 anos, é indicado tratamento apenas à base de terapia. A partir dessa idade, de acordo com o quadro do paciente, pode ser recomendado o uso de medicação em paralelo ao acompanhamento psicológico. "A terapia sozinha fará um trabalho eficiente em longo prazo. No entanto, em crianças mais velhas, o uso de medicamento tem efeito bastante satisfatório quando acompanhado do trabalho psicológico, levando à resolução do problema em apenas dois meses em 95% do casos", completa.

As causas para a depressão infanto-juvenil podem ser as mais diversas. Há fatores biológicos, como vulnerabilidade genética, complicações obstétricas e temperamento; fatores ambientais, como o funcionamento familiar, a interação entre mãe e criança ou eventos adversos de vida, e fatores sociais, como a pobreza, o suporte social ou o acesso a serviços de saúde.

A convivência com uma psicopatologia dos pais e a experiência de episódios traumáticos nesta idade, como separação, luto ou mudanças radicais de ambiente, também podem ser fatores decisivos para o desencadeamento de transtornos mentais em crianças e adolescentes.

Fatores de berço

De acordo com Ana Vilela Mendes, psicóloga e pesquisadora do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, de 40 a 45% das crianças que convivem com a depressão materna apresentam indicadores diagnósticos de pelo menos um transtorno psiquiátrico.

Esta taxa é de três a quatro vezes maior do que a apresentada por crianças cujas mães não têm história psiquiátrica. "As manifestações próprias do quadro depressivo materno, como irritabilidade, desânimo e apatia, podem influenciar na qualidade do vínculo que a mãe estabelece com a criança, comprometendo a interação e o funcionamento emocional e social da criança", afirma ela.

O nível de exposição da criança à mãe com diagnóstico de depressão também pode ser definitivo para o desenvolvimento de seu quadro. Em estudo recente, Ana Vilela comparou crianças em idade escolar que conviveram com a depressão materna por toda a vida a crianças que conviveram com a depressão materna por um período menor de tempo. Ela constatou que as crianças com mais tempo de exposição à depressão materna apresentaram uma probabilidade 1,6 vezes maior de terem problemas psiquiátricos.

"Estes resultados reafirmam a importância de se considerar o tempo de exposição da criança à depressão materna e sua influência nos diferentes períodos do desenvolvimento", constata. Daí a importância da psiquiatria e da psicologia em favorecer o diagnóstico ainda no começo de sua manifestação.

Diagnóstico delicado

Por tratar-se de um transtorno mental impassível de comprovação laboratorial, o diagnóstico da depressão é baseado nos critérios estipulados pelo Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), que exige a existência de pelo menos cinco dos sintomas determinados pelo documento, com durabilidade de duas semanas, para comprovação do quadro. Entretanto, em crianças em plena fase de desenvolvimento da personalidade, a aplicação do diagnóstico pode ser mais complexa e delicada.

"Não é um diagnóstico simples de se obter, pois os sintomas podem ser confundidos com timidez, mau humor, dificuldade de aprendizagem, tristeza ou agressividade, que de certa forma podem ser normais na faixa etária em questão. O que diferencia a depressão das tristezas do dia a dia é a intensidade, a persistência e as mudanças em hábitos normais das atividades da criança", afirma Ana Vilela.

Um estudo realizado pela antropóloga Eunice Nakamura, pelo Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP), revelou que não é apenas a complexidade da mente em desenvolvimento que pode ampliar a noção dos sintomas que causam a depressão. O estudo, que entrevistou famílias de regiões periféricas da cidade de São Paulo, constatou que diversos aspectos apontados como possíveis sintomas pelos pais e pelas próprias crianças diagnosticadas ultrapassam os critérios determinados pelo Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais.

"Do ponto de vista das famílias, o significado de depressão envolve tanto os aspectos da vida social quanto os sintomas indicados pelo discurso médico. A intolerância dos adultos em relação às crianças, que diante de condições de vida deliciadas ficam mais sensíveis e chorosas, e a ideia de insatisfação em geral, por exemplo, apareceram como indicação de sintomas de depressão", conta professora Eunice Nakamura, atualmente no núcleo de pesquisa antropológica da Unifesp Santos.

"Já que a ideia de depressão infantil, para estas famílias, envolve uma série de fatores externos, o grande desafio dos especialistas é pensar em tratamentos adequados ao que se avalia diante de cada ponto de vista da doença, uma vez que aspectos externos podem ser confundidos com sintomas", completa.

Transformação dos sintomas

Alteração de humor, irritabilidade, dificuldade para dormir ou muito sono durante o dia, além de pessimismo e autodepreciação, são comuns ao quadro de depressão encontrado tanto no adulto quanto no jovem. Mas em um momento em que a personalidade da criança está em pleno desenvolvimento, diagnosticar um transtorno mental é ainda mais difícil.

Segundo Fábio Barbirato, crianças em idade pré-escolar (até 5 anos) tendem a desenvolver sintomas como melancolia, enurese (xixi na cama), encoprese (eliminação de fezes involuntária) e crises de choro. Também podem ocorrer regressão no desenvolvimento psicomotor, insônia e pesadelos.

Em crianças na idade escolar (de 6 a 12 anos), os sintomas estão mais relacionados a aspectos de sociabilidade, como dificuldade acadêmica, problemas de relacionamento com a família e os colegas, irritabilidade e agressão crescentes, tédio, ganho ou perda de peso excessivo, cefaleia e dores de estômago.

Já entre os adolescentes, o transtorno passa não apenas a intensificar os sintomas encontrados na infância, como desencadeia uma série de comportamentos até mesmo fatais. "Esta fase do transtorno provoca nos jovens comportamentos anedóticos (incapacidade de sentir prazer), com quadros de tristeza intensa, condutas antissociais, ataques de pânico, queda no rendimento escolar, hipersonia (sonolência em excesso), e em casos mais extremos, promiscuidade sexual, abuso de drogas e até mesmo suicídio", afirma o médico.

Sintomas

O Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais determina a necessidade de identificar pelo menos cinco destes sintomas, com durabilidade de duas semanas, para comprovação do quadro. Fique atenta a esses sinais para saber quando levar seu filho para uma avaliação profissional.

1. Alteração de humor, com irritabilidade e ou choro fácil

2. Ansiedade

3. Desinteresse em atividades sociais, como ir a escola, brincar com os amigos ou com brinquedos

4. Falta de atenção e queda no rendimento escolar

5. Distúrbios de sono, como dificuldade pra dormir ou ter sono o dia inteiro

6. Perda de energia física e mental

7. Reclamações por cansaço ou ficar sem energia

8. Sofrimento moral ou insatisfação consigo mesmo, sentimento de que nada do que faz está certo

9. Dores na barriga, na cabeça ou nas pernas

10. Sentimento de rejeição

11. Condutas antissociais e destrutivas

12. Distúrbios de peso, emagrecer ou engordar demais

13. Enurese e encoprese (xixi na cama e eliminação involuntária das fezes)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Tecnologias aumentam dispersão no trabalho

Uso do celular e de redes sociais tornam a gestão do tempo um desafio ainda maior

Roberta Gonçalves, iG São Paulo
22/10/2010

Conectados quase 24 horas por dia graças ao uso de celulares, notebooks, redes sociais entre outros, os profissionais se veem diante da difícil missão de administrar seu tempo para dar conta das múltiplas tarefas que precisam executar.

Com as tecnologias impulsionando a invasão do ambiente de trabalho pelos assuntos pessoais e vice-versa é cada vez mais difícil focar nas atividades. De acordo com um estudo da Workplace Options, empresa de serviços de suporte ao profissional, realizado com mais de 600 pessoas nos Estados Unidos, 53% dos entrevistados afirmaram que as distrações no ambiente de trabalho afetam a produtividade. Isso implica em perdas de até US$ 650 milhões anualmente para as empresas, de acordo com Jonathan Spira, co-autor do estudo.

Perda de foco

Entre os fatores que geram dispersão estão atitudes pessoais como relacionamentos no trabalho e conversas de corredor, apontada por 24% dos pesquisados. Na sequência vem a tecnologia (incluindo e-mail, telefone, mídias sociais e internet), citada por 23%, as reuniões (12%), o ambiente, com o barulho dos colegas, música ou TV e falta de privacidade (6%) e as celebrações, como aniversários, esportes etc (4%).

No quesito tecnologia, merecem destaque os aparelhos móveis. Apesar de 60% dos entrevistados afirmarem que o smartphone aumentou a produtividade, 35% dizem que esses equipamentos ampliam o nível de dispersão. As redes sociais também colaboram para tirar o foco do funcionário: 55% dos entrevistados afirmam que acessar redes sociais no trabalho aumenta um pouco ou significantemente sua dispersão.

“Com a internet, celular e redes sociais temos uma perda de foco maior, pois ainda não nos acostumamos a lidar com a realidade multitarefa. Não fomos preparados para isso”, afirma Cristian Barbosa, diretor-executivo da Triad Consulting. Já a nova geração, que nasceu nos anos 2000 e lida com muitas tecnologias desde a infância, tende a assimilar melhor os múltiplos estímulos, na visão do especialista.

Casa e trabalho mais próximos

A facilidade de ser encontrado também diminuiu as fronteiras entre a vida pessoal e a profissional. "Quando a pessoa fica à disposição, seja no celular ou e-mail, fora do horário do expediente, ela está abrindo mão de seu tempo pessoal, por isso é importante aprender a dizer não", afirma Américo Marques Ferreira, consultor sênior do Instituto MVC.

Para ele, é preciso ter disciplina e tratar assuntos corporativos no ambiente de trabalho e os pessoais fora dele. "O profissional deve estabelecer limites e, se a demanda é alta, falar abertamente com o gestor que precisa de ajuda para estabelecer prioridades", afirma. "Às vezes o chefe não se dá conta da carga de trabalho que passou para o funcionário."

O mesmo exercício deve ser feito para as questões pessoais. "Estabeleça horários e não se mostre muito disponível durante o expediente para evitar muitas interrupções."

Em busca de flexibilidade

Usar o horário de almoço para resolver pendências e negociar com o chefe são saídas apontadas por Barbosa para dar conta de todas as tarefas. "Não tem como não resolver questões pessoais no trabalho, já que passamos a maior parte do tempo no ambiente empresarial", destaca.

Ele acredita que há um movimento de flexibilização por parte das companhias, que começam a olhar mais para os resultados e menos para o relógio. "A nossa lei é muito engessada e, algumas vezes, mesmo que a empresa queira flexibilizar, a legislação impõe muita burocracias", afirma, citando o caso de alteração de horário, que exige anotação na carteira de trabalho e notificação ao sindicato, em alguns casos.

Diferença entre homens e mulheres

Responsável, muitas vezes, também pela administração da casa, a mulher é ainda mais afetada pela interferência das tarefas pessoais no trabalho. De acordo com pesquisa da Workplace Options, as mulheres tendem a ver mais impacto negativo de suas outras responsabilidades em suas rotinas de trabalho do que os homens.

Além disso, as mulheres são três vezes mais propensas do que os homens a gastar pelo menos 25% do seu tempo no trabalho solucionando questões não-profissionais. Por outro lado os homens tendem a gastar mais o seu tempo pessoal em rotinas do trabalho. "A mulher deve tentar negociar divisões de tarefas e delegar", aconselha Ferreira."Na medida em que não reserva um tempo para si, a mulher fica mais estressada e a produtividade cai", alerta Barbosa.
Reposição hormonal: nova polêmica?


Novo estudo aponta que terapia de reposição de hormônios aumenta o risco de morte por câncer de mama

Reuters


Mulheres que fizeram reposição hormonal tiveram maiores incidências de câncer de mama em estágio avançado e foram mais propensas a morrer dele quando comparadas a mulheres que tomaram uma pílula placebo, o que aumentou a preocupação das autoridades norte-americanas sobre esses medicamentos muito usados por mulheres daquele país.

O estudo, publicado na revista científica da Associação Médica Americana, é o primeiro a reportar mais mortes por câncer de mama entre mulheres usuárias da terapia de reposição hormonal. E mais: o primeiro a contradizer os resultados de pesquisas anteriores que sugeriram que mulheres em terapia de reposição de hormônios, quando acometida por tumores de mama, tinham cânceres menos agressivos e mais fáceis de tratar.

“Ao contrário da idéia que tínhamos dois anos atrás, de que o câncer associado à reposição de estrogênio e progesterona seria de evolução favorável e sem grandes problemas para a mulher, estamos vendo hoje que essa reposição está associada a um risco maior de morte por câncer de mama” disse Rowan Chlebowski, do Instituto de Pesquisa Biomédica de Los Angeles, pesquisador líder do estudo, em entrevista telefônica à Reuters.

As conclusões foram baseadas no acompanhamento, ao longo de 11 anos, dos dados de mais de 12 mil mulheres que participaram do estudo “Women’s Health Initiative”, o mesmo que em 2002 apontou que o uso contínuo de estrogênio e progesterona por cinco anos aumentava o risco de câncer de ovário e mama, assim como de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Na época, a venda da terapia de reposição hormonal líder no mercado norte-americano caiu pela metade.

Dobro de mortes

Analisando os dados das mulheres do estudo “Women’s Health Initiative” e encontraram duas vezes mais mortes por câncer de mama entre as que fizeram reposição hormonal – 2,6 mulheres em cada 10 mil por ano contra 1,3 em cada 10 mil por ano entre as que tomaram placebo. Quase 24% dos cânceres de mama das usuárias de hormônios se espalharam para os linfonodos, contra 16% entre as usuárias de placebo.

“Os índices de todos os cânceres preocupantes, com prognósticos desfavoráveis, também aumentaram” afirmou Chlebowski, citando as formas agressivas de câncer de mama e não apenas os tumores não relacionados ao estrogênio, que são mais fáceis de tratar.

“Pela primeira vez mostramos que as mortes por câncer de mama também aumentaram significativamente” disse o pesquisador.

Alguns fabricantes de medicamentos alertam aos médicos nas bulas dos medicamentos para prescreverem a reposição nas doses eficazes mais baixas e por um período curto de tempo. Mas mesmo essa conduta não está isenta de risco, sugere Peter Bach, do Centro de Câncer Memorial Sloan-Kettering, de Nova York (EUA), em um comentário publicado na mesma revista onde consta o estudo de Chlebowski e sua equipe.

“É importante enxergar os dados no contexto mais amplo, tanto em relação aos sintomas da menopausa quanto ao grande corpo de informações – desenvolvido em mais de 60 anos de estudos – sobre os benefícios e riscos da terapia de reposição hormonal”.

Muitos especialistas apontaram que a idade média das mulheres acompanhadas no estudo era de 63 anos – uma faixa de idade posterior à menopausa – e que os resultados encontrados podem não ser aplicáveis a mulheres que fazem outras formas de reposição hormonal ou àquelas que iniciam a terapia imediatamente após a menopausa.

* Por Julie Steenhuysen

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Quem é burro?


24/06/2010

O fim da burrice

“Você é burro menino?” – quem não ouviu isso em sala de aula? Os de minha geração, todos ouviram. Alguns tiveram a sorte de jamais ouvirem tal frase dirigidas a eles próprios, mas não tenho dúvida que escutaram seu eco. A palmatória havia sido enterrada fazia tempo, mas um puxão de orelha e até uma régua quebrada na cabeça eram bem toleradas pela criançada e aprovada pelos pais.

Fiz a “escola primária” em meados dos anos sessenta. O movimento da pedagogia da Escola Nova que, enfim, colaborou em muito para a suavização das relações entre professor e aluno, já estava entre nós há mais de trinta anos. Todavia, só na minha época de escola primária é que a “pedagogia renovada” começou, de fato, a mudar alguma coisa na sala de aula.

Lembro bem que do primeiro para o segundo ano mudei de prédio e, então, na nova sala, as carteiras já não eram fixas no chão e o tablado do professor havia desaparecido. As “normalistas estagiárias” haviam sido orientadas para nunca chamar um aluno de “burro”. Elas vinham para a classe só uma vez na semana. As nossas professoras nunca deram bola para as jovens que vinham ali dar “aula prática de estágio” e muito menos para o que essas moças aprendiam na Escola Normal. Continuaram a usar “seu burro!” a torto e a direito até o final do meu quarto ano (1969). Quando entrei para o ginásio, aí sim, não me lembro de ter ouvido alguém usar tal expressão.

Ouvi dizer que o “você é burro menino” (com “!” ou “?”) continuou a sua história ainda durante mais alguns anos na escola pública. Hoje em dia, qualquer coisa parecida com isso pode levar o professor aos tribunais e, não raro, a uma punição pouco confortável – talvez merecida. Adotamos a idéia de que a missão civilizadora da escola deve utilizar métodos civilizados. Todavia, surgiu aí um efeito colateral, não propriamente para a escola, mas para a nossa conversação em geral. O “você é burro menino”, uma vez proibido na sala de aula, começou a perder sua força de frase de estimulação (um feedback negativo) ou de humilhação para se tornar uma mentira à luz da ciência, em especial da psicologia. Nossa aventura semântica se fez de tal modo que, não raro, pegamo-nos hoje dizendo por aí que ninguém é burro e que a burrice não existe.

Bom, como ninguém mais é burro e como a burrice não existe a quem vamos atribuir os erros que, afinal, continuam a ser cometidos aos borbotões em tudo que fazemos? Todos os dias nós temos de criar mais e mais palavras para substituir o “você é burro menino”, como afirmação ou pergunta. Uma ciência da psicologia que aconselhou não chamar ninguém de burro, pois isso serviria como desincentivo, criou uma verdade científica que não se importa mais com qualquer feedback, e sim com o que seria uma descoberta estranhíssima: ninguém entre nós é burro. Minha geração foi, talvez, a última que conviveu com a burrice. Hoje, todos os jovens são inteligentes.

Aceitamos assim a lógica da compra de preservativos: não existem os tamanhos “pequeno”, “médio” e “grande”, a classificação sugerida é “gigante”, “colossal” e “monstro”. Ou a lógica dos quartos de motel, que aboliram o quarto “simples”; o quarto mais pobrezinho é já o “executivo”, ainda que continue, é claro, sendo o quarto simples. O McDonalds foi mais esperto, já fez o “Big Mac” nascer “big”. Pode agora ir diminuindo de tamanho e aumentando de preço, mas sanduíche é big por nascimento. A Unicamp, por sua vez, aboliu a nota nos exames de pós-graduação: todo mundo é, de início, já “aprovado”, e aí são dados os “méritos”: “com louvor”, “com louvor e mais sei lá o que” etc.

Assim é a juventude de hoje, do primário ao doutorado: “inteligentes”, “vivos” e “gênios”. As mães adoraram essa semântica do elogio. Uma revolução! Da puericultura aos manuais de tratamento de adolescentes é só flores aos rebentos da classe média. Eis as mães atuais falando: “Ele é inteligente o danadinho, mas não passou no vestibular” (pois, afinal, o vestibular é um “engodo da burguesia para tirar os pobres da escola e blá, blá, blá – aquela “conversa fora do lugar”, sabe não é?). “Ela é uma menina muito viva, mas de tão viva que é, não consegue ficar parada e, enfim, não estudou e não passou no vestibular – mas o dia que pegar firme, passa fácil”. “Nossa, meu filho é um gênio, ele nem fez cursinho e já entrou direto na medicina da Unimar, em Marília” (Unimar, se você não sabe o que é, esqueça, nem é bom saber!). Ninguém mais é burro: cada jovem de classe média é ou inteligente ou vivo ou gênio. Não consigo entender a razão do Brasil ter problemas nos exames internacionais com uma juventude assim.

Como a população brasileira foi declarada, por decreto científico, toda ela inteligente, os erros agora vão ganhando explicações cada vez mais hipócritas. Assim, não raro, não conseguimos mais corrigi-los, pois não se pode nem mais dizer que alguém errou, uma vez que, se dissermos e quisermos ser verdadeiros, confessaremos que errou pela décima vez e, no entanto, não é burro, o que torna tudo muito misterioso.
O nascimento da burrice

Eu sou da velha guarda e sei perfeitamente, junto com os filósofos frankfurtianos Adorno e Horkheimer (não à toa, alemães), que é uma coisa pouco inteligente dispensar a idéia da existência da burrice e menos ainda a de que existem burros.

Entre os sketchs finais do clássico Dialektik der Aufklärung, dos dois frankfurtianos, há um com o título “a origem da burrice”. Não se trata de um texto de cunho psicológico ou pedagógico. Não deve ser lido assim e, por isso, o que vou dizer daqui para diante precisa ser compreendido em um registro especial, tipicamente filosófico, que é o da história da subjetividade, um tópico que já se tornou uma constante em meus artigos e livros.

Horkheimer e Adorno denominam a burrice como cicatriz. A burrice é fruto de uma repressão à espontaneidade. Essa repressão faz com que um movimento de curiosidade ou um movimento aleatório, que poderia se repetir para em seguida ter continuidade, fique se repetindo apenas até certo ponto, sem nunca avançar, sem jamais se desdobrar em uma ação nova. Isso é a burrice: a cicatriz que marca o corpo e que faz o organismo se tornar maquinal, repetitivo, aparentemente brincalhão, porém triste. A tristeza da burrice está no fato de que quem se tornou estúpido mostra-se sempre pronto a repetir o gesto que foi vítima da repressão, do choque – o gesto que fez seu autor experimentar o medo.

A burrice do burro é específica, como toda burrice. Afinal, o que faz o burro, o animal? Ele é conhecido pelo fato de “empacar”. O burro no sentido metafórico faz o mesmo. Ele repete o gesto sempre em algum lugar, motivado por algo que não sabemos o que é, mas que logo percebemos que é sempre a mesma coisa. Ele reproduz o gesto que fez pela última vez, quando foi ali repreendido (por alguém) ou se machucou (no confronto com algo). Não aprendeu, mas se recolheu diante do medo. No caso do burro animal, ele cessa de andar no ponto em que alguma repressão ocorreu. Este ponto pode não ser um local físico, espacial, mas apenas as condições cinestésicas que o fazem recordar dor e medo. É interessante que o burro animal não volta, apenas não segue. Pois não é pelo reconhecimento do local que pára, é muito mais pela informação que seu próprio corpo transmite a si mesmo. A cinestesia é tudo nesse caso. Este comportamento é o da burrice típica, o de todos os que tiveram que negar a si mesmo por causa de uma admoestação. Incorporaram a admoestação como quem ganha uma cicatriz. Nesse sentido, a burrice é uma cicatriz. Ora, mas no caso do homem que forma seu ego como corpo, pode-se dizer que nem é no sentido metafórico que a burrice é uma cicatriz, e sim literal. Podemos saber em que pontos do corpo, do ego moderno enquanto elemento corporal par excellence, estão localizados os momentos que determinaram uma pessoa a ser burra.
Essa situação aparece exemplificada no livro de Horkheimer e Adorno, o Dialektik der Aufklärung, na parte em que os frankfurtianos contam a história da chegada de Ulisses de volta à Ilha de Ítaca, da qual era senhor.

Ao aportar em Ítaca, Ulisses não é reconhecido por Penélope. Ele é reconhecido somente por duas características corporais, ambas são marcas. Uma é o cheiro; o seu cão o reconhece. Outra é uma cicatriz de infância; por esta, decisiva, ele é reconhecido pela sua ama, a que cuidou dele quando criança. Ulisses retoma, então, sua condição de rei de Ítaca, mas não pelo que pensa e diz, e sim pelo que deveria ser o menos confiável para nós, os testemunhos de um cão e de uma velha que, para tal, mostram marcas do corpo de Ulisses. Não deveria Penélope reconhecer seu cheiro? Não deveria mais alguém lembrar da existência da cicatriz? Não foi o que ocorreu. Portanto, será mesmo que foi Ulisses quem voltou da Guerra de Troia?

Mas, este era o problema: o que havia em Ulisses, a mais, para identificá-lo? Um tipo de sabedoria? Talvez não.

Ulisses, ao aportar em Ítaca, como herói matreiro, não mostra nenhuma inteligência viva. Exibe uma inteligência que não é outra senão a do calculador. É a inteligência restrita daquele que se mostra esperto, mas que está longe de ser inteligente e muito mais longe, ainda, de ser sábio. Ele pensa somente segundo a razão estritamente instrumental, a que arruma os meios para atingir determinados fins, mas que não faz qualquer esforço para avaliar os fins.

Uma vez na Ilha de Ítaca, ele continua de estratégias em estratégias, de golpes baixos em golpes baixos – como fez durante toda a sua aventura de volta à Itaca, ao passar por cada potência mítica. Não está apto em se mostrar um sábio rei da Ilha, capaz de contar o que passou na Guerra de Troia e o que ocorreu no seu retorno. Um homem que passou por tantas ricas experiências e que não se tornou um grande articulador, no tempo narrativo, de contos do amor, não é de certo modo alguém limitado? Um sábio contaria boas histórias aos convivas que estavam ali para fazer a corte à Penélope. Inebriaria a todos com a sua prosa, vencendo os rivais pela autoridade da vivência. Os rivais se afastariam, deixariam Penélope para Ulisses e sairiam dali reconhecendo a legitimidade dele ao trono de sua própria Ilha. Não! Ulisses age de modo matreiro e, enfim, violento. Nada conta de suas aventuras, nada mostra como experiência adquirida. Homero conta tudo por ele. Ulisses mesmo, não tem nada a dizer. Ele próprio é um conjunto de cicatrizes, de renúncias, de repressões auto-impingidas em nome da auto-conservação. De tanto exercício de troca no mercado instaurado entre ele e as potências míticas, Ulisses chega ao fim da jornada meio que idiotizado. Como todos os trabalhadores chegam ao mercado, no mundo moderno de Marx, Ulisses encontra Ítaca sem uma oratória sábia. O que saber fazer é calcular para, então, matar em emboscada seus rivais. A Odisseia termina em um banho de sangue, sabemos bem.

Ulisses é o herói burro. Tão festejado na cultura Ocidental por ser inteligente, é desmascarado por Horkheimer e Adorno por ser burro. Diante dos rivais ele não faz outra coisa senão empacar, ou seja, repetir. Ele repete contra os rivais a matreirice e a violência que lhe foi impingida enquanto se constituiu como sujeito, como indivíduo – o dono das terras, o senhor “burguês” proprietário de Ítaca e de vários trabalhadores. Para se tornar um indivíduo, Ulisses foi de renúncia em renúncia, e cada uma implicou em uma repressão física sentida e internalizada. Não houve sublimação para que Ulisses pudesse se tornar um indivíduo pleno, mas apenas repressão, o que o tornou um indivíduo cuja subjetividade é minguada, dada apenas pelo seu corpo. Ulisses é burro nesse sentido: repete com outros a única maneira que aprendeu como sendo o relacionamento: se é para corrigir, o melhor meio é a violência, como o que foi feito com ele. Afinal, ele não se tornou inteligente, isto é, matreiro, ao deixar de lado os prazeres e, então, passar pela dor vinda desse gesto? Para se formar como indivíduo – chamado de inteligente porque engana – Ulisses curtiu o engodo da troca falsa e a violência e, então, é isso que devolve ao mundo, no caso, aos seus rivais. Emboscada e matança.

Essa lição dos frankfurtianos diz respeito ao processo da cultura como um todo. Não diz de como cada um de nós pode ou não ser burro. Mas, em certo sentido, diz como é que a burrice se institui. E diz um pouco, sim, de como são os traços de cada burro. O burro repete e, às vezes, passa-se por alguém inteligente, pois muitos pensam que o matreiro e violento é inteligente. Não é, é burro. Pode vencer situações, mas, quando requisitado a ir além, mostra sua cicatriz, seu limite.
Tente tirar uma cicatriz. Não vai conseguir fácil. Para tirar uma cicatriz, talvez tenha de fazer outra – uma cirurgia plástica que, enfim, nunca deixará de ser uma nova cicatriz.

© Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Fontes: Blog O Filósofo


              Blog Diacrianos

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Contra a demência, caminhe!
Estudo aponta que caminhar regularmente pode reduzir os riscos de desenvolver demência na velhice
Reuters

Pesquisadores americanos disseram na última quarta-feira que caminhar pelo 9,6km diariamente pode ajudar na luta contra a demência, evitando o encolhimento do cérebro mais tarde, na idade avançada.
 Participaram do estudo, realizado em Pittsburgh (Estados Unidos), cerca de 300 pessoas que tiveram suas caminhadas semanais monitoradas. Os participantes que caminhavam pelo 9,6km semanais apresentaram menores índices de encolhimento do cérebro, uma condição decorrente do avanço da idade.
 "O cérebro sofre um encolhimento no final da idade adulta, o que pode causar problemas de memória. Nossos resultados devem estimular a realização de testes de exercícios físicos bem elaborados para analisar pessoas de meia idade, funcionando como uma técnica promissora na prevenção da demência e da doença de Alzheimer", diz Kirk Erickson, da Universidade de Pittsburgh, cujo estudo foi publicado na revista especializada Neurology.
 O Alzheimer, a forma mais comum de demência, mata lentamente as células cerebrais e atividades como a caminhada têm mostrado resultados na construção do volume cerebral. Erickson e seus colegas de equipe realizaram testes para analisar se as pessoas que fazem caminhadas regulares podem ou não estar melhor posicionadas na luta contra a doença.
 O estudo reuniu 299 pessoas que não sofriam de demência e que tiveram suas caminhadas monitoradas. Nove anos depois, cientistas realizaram tomografias para calcular o volume do cérebro dos participantes.
 Quatro anos depois, os voluntários passaram por testes para checar a presença de debilidade cognitiva ou demência.
 Os pesquisadores constataram que aqueles que caminhavam entre 9,6km e 14,5km por semana apresentavam a metade dos riscos de desenvolver problemas de memória.
 "Nossos estudos estão em conformidade com dados de que atividades aeróbicas ativam funções cerebrais que possivelmente aumentam o volume da massa cinzenta", escreveu a equipe.
Os pesquisadores afirmam que outros estudos serão necessários para comprovar a relação dos exercícios físicos e a demência, mas, na ausência de outros tratamentos eficazes para combater o Alzheimer, caminhar pode ser uma forma bem saudável de prevenir a doença.
 "Se os exercícios regulares na meia idade podem melhorar a saúde cerebral e ajudar a melhorar o pensamento e a memória na velhice. Essa seria mais uma boa razão para que eles se tornassem uma necessidade básica de saúde pública para pessoas de todas as idades", disse Erickson.
 Ainda não existem medicamentos capazes de alterar a progressão do Alzheimer, doença que afeta mais de 26 milhões de pessoas em todo o mundo.